Gostaria de fazer um comentário mais alargado ao filme dos irmãos Dardenne que vimos ontem, mas vou dividi-lo em dois posts distintos: o primeiro dedico-o às questões de natureza estética e o outro ás questões de conteúdo.
O filme provoca estranheza em quem o vê. É totalmente desprovido, austero, ascético. Em muitos momentos, torna-se rude e áspero. Eu sei que estas questões de apreciação estética prendem-se muito com os gostos subjectivos de cada e torna-se sempre difícil argumentar sobre o gosto, quando este tem uma considerável base afectiva e não racional. No entanto, vou tentar.
Sobretudo nas últimas décadas, o cinema tornou-se numa arte completamente previsível. De todas as indústrias culturais, o cinema é aquela que é mais cara em termos de produção e a que mais tem que estar sujeita às regras do mercado. Mais do que uma arte, o cinema tornou-se numa gigantesca indústria. Os grandes estúdios de Hollywood investem muito dinheiro e querem, legitimamente rentabilizá-lo. No seu modo de produção e nos objectivos a alcançar, o cinema não é substancialmente diferente de qualquer outra indústria, seja ela de automóveis ou de sabonetes. O objectivo principal é o lucro.
O lucro parece-me algo de totalmente legítimo, sobretudo quando promovido por entidades privadas. Mas nas artes em geral e no cinema em particular, tem efeitos perversos. Se repararem no cartaz de filmes actualmente em Lisboa, eles são todos extremamente parecidos. Não no conteúdo, ou nos actores, mas nos processos pelos quais são feitos. O cinema visa agradar ao suposto gosto de massas e por isso não arrisca nada. Os argumentos são lineares, as montagens e realizações não albergam nenhum tipo de surpresas, a forma de representar é sempre idêntica. Criou-se a ideia de que o cinema é apenas uma forma de entretenimento. As pessoas vão às salas para se divertirem um bocado e as questões culturais são desvalorizadas. Mais: o cinema como forma de questionamento do próprio espectador, os filmes abertos que exigem um esforço de interpretação, são liminarmente banidos, porque não são comerciais, não dão lucro. Ou seja, a indústria cinematográfica torna os espectadores mentalmente preguiçosos.
Talvez por isso é que um filme como Rosetta seja tão estranho para os olhos dos espectadores comuns. É que ele contraria o hábito de ver um filme com absoluta passividade, como se o mesmo não fosse uma obra aberta, capaz de variadas interpretações. O grande cineasta francês Alain Resnais, felizmente ainda hoje vivo e activo apesar dos seus 88 anos, afirmou recentemente, que desde há 50 anos que filma obras que desafiam a capacidade interveniente do espectador, a sua capacidade de apropriação e de interpretação do filme, num processo incessante de descoberta de leituras num filme que nem sempre são facilmente desvendáveis.
Só o facto de ser diferente, não faz de Rosetta um grande filme. O que me impressiona é que a frugalidade, eu diria mesmo, a pobreza franciscana de meios, coaduna-se brilhantemente com os objectivos do filme: relatar uma vida desumana, quer do ponto de vista social, quer do ponto de vista das condições psicológicas que a mesma proporciona. Focar que a pobreza torna-nos menos humanos, um qualquer elo perdido no reino animal, metade pessoa, metade outra coisa qualquer, é uma ideia central de Rosetta. Os momentos decisivos são de uma intensidade dramática exemplar, mesmo comovente, em contraste com a aparente falta de sentimentos da protagonista do filme. Refiro-me como exemplo apenas à cena em que o amigo se afunda nas lamas do lago: o momento de hesitação expresso no rosto de Rosetta, entre o dever social e moral da salvação e a vontade egoísta de usurpação do emprego, é absolutamente brilhante.
O filme está cheio de pormenores tristes, quase sórdidos ou patéticos, mas, nem por isso, menos significativos: a rapariga que troca os sapatos normais pelas galochas, que alivia as dores com um secador de cabelo, a falta de jeito para dançar quase grotesca, o barulho irritante de uma motoreta,a água fora de casa que corre de uma torneira relutante, as lutas físicas com os patrões, os resfolegares, as respirações ofegantes. A pobreza é filmada de forma nua, sem artifícios, sem bálsamos que a adocem ou véus que a obscureçam E repito a pergunta que fiz na aula: poderia este filme ser filmado de outra forma? Parafraseando o anúncio, podia, mas não era a mesma coisa. Faltar-lhe-ia a autenticidade e a intensidade que desta forma tem.
É que a pobreza não é apenas uma chaga social, infelizmente crescente e incontrolável. A grande ilacção do filme é que ela (a pobreza)não só nos torna menos escrupulosos em matéria moral e mais propensos para abraçar aquilo que comummente se designa pelo mal; a pobreza torna-nos também mais feios. E nada melhor que o rosto de Rosetta vergada pelo esforço de carregar uma bilha de gás, aparentemente para se suicidar, para o demonstrar.
Jorge
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