terça-feira, 2 de novembro de 2010

Rosetta - 2ª parte.

O que é desconcertante num filme como Rosetta, é a forma nada convencional como os irmãos Dardenne tratam as personagens. Falta o herói tradicional que representa o Bem e que se opõe de forma nítida aos maus, numa dicotomia maniqueísta que faz grande parte da história do cinema.

O cinema social, normalmente designado na Europa por neo realismo, teve o seu expoente máximo na Itália das décadas de 40 e 50. Cinema de esquerda preocupado com os mais pobres que se tornam protagonistas (Os pescadores em A Terra Treme de Visconti, um colador de cartazes em Ladrões de Bicicletas de Vitorio de Sica, uma artista ambulante em A Estrada de Fellini, etc.), são filmes geniais, mas que conduzem a uma identificação entre o espectador e as personagens principais vítimas de injustiças, maus tratos e exploração. Não é isso que acontece em Rosetta.

Se podemos considerar que o cinema dos Dardenne se filia nessa brilhante tradição de cinema social, o filme provoca uma ruptura entre o espectador e as personagens, em grande parte porque lhe falta o lastro da moralidade. Rosetta parece-me um filme profundamente ambíguo peça sua amoralidade. Nenhuma personagem serve de exemplo para ninguém: Rosetta quer um trabalho sério, mas não hesita em denunciar o seu único amigo; este é amigo de Rosetta, mas rouba o patrão; este, por sua vez, parece condoer-se de Rosetta, mas despede-a para lá colocar o seu filho; a mãe é fraca e alcoólica; o tipo que vende o gás e liga a água no parque onde elas vivem é mesquinho e ganancioso.

Se, por um lado, o filme se insere na tradição do cinema de esquerda com a denúncia dos mecanismos de funcionamento da sociedade capitalista, por outro lado é um ataque aos principais clichés de esquerda: a da consciência social e de classe dos oprimidos e explorados que levará inevitavelmente a uma transformação social no sentido de uma maior justiça.

E é aí que Rosetta se torna um filme tão interessante. Em termos políticos faz-nos pensar que os mais pobres não querem de facto nenhuma revolução, mas apenas viverem melhor segundo os padrões do capitalismo. A alienação domina-nos por inteiro e a relação com os ricos não é de combater as injustiças, mas sim de inveja.

O assunto dá pano para mangas. Eu que vivi uma revolução por dentro (em Portugal a seguir ao 25 de Abril) vi sempre que os mais revolucionários, os mais generosos e militantes das causas da esquerda, eram estudentes oriundos de classes com algum poder de compra, ou intelectuais que também não eram propriamente pobres. Falavam em nome dos operários e da revolução socialista. Estes iam vivendo a sua vida entre copos e bola. Porque será?

Jorge

2 comentários:

  1. Na minha opinião deve-se ao acesso mais facil que os que têm mais dinheiro têm à educação. Quem não tem dinheiro e não consegue manter-se na escola, não desenvolve bases que lhe permitam desenvolver capacidades de reflexão em relação ao mundo em que vivemos.
    Por outro lado, nós vivemos no meio da inveja, e como se costuma dizer: "A galinha da vizinha é mais bonita que a minha", e como tal as pessoas aspiram ao que os mais ricos têm, querem ser como eles, não destrona-los. É exactamente por isso que se perguntarmos a uma pessoa que não seja propriamente rica se gostaria de ver o capitalismo findado, ela responderia que não, e que se calhar aquilo que queria mesmo era uma casa na Quinta da Marinha.
    Alexandre Evaristo

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  2. Pois, acho que é precisamente uma questão das pessoas se inferiorizarem. Nasceram no seio de uma família pobre e com uma reduzida educação, e eles próprios têm dado seguimento a este estado. Por aí se poderão sentir ignorantes e sem capacidade de agir, incapacitam-se a eles próprios com esta maneira de pensar. Consideram mesmo as pessoas mais abastadas como superiores, penso que é esse o cerne do problema. A isto é que eu chamo ser espectador da vida, principalmente se formos pensar no exemplo que o stôr deu das pessoas que mais lêem as revistas cor-de-rosa. Julgam não poder mudar a situação, talvez que a merecem até, e daí o melhor é desenrascarem-se como podem com o que têm, deixar andar...

    As pessoas que já observam esta situação "de cima", talvez com mais consideração e informação sobre o que podem ou não fazer, sobre onde está a manipulação ou não, conseguem analisar a situação e saber por onde começar e, mais que tudo, se se pode realmente fazer alguma coisa em relação a ela. A partir daí é uma questão de se ter vontade e das pessoas a quem se dirige o movimento serem iluminadas, por assim dizer, e terem vontade de se mexer.

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