O filme os Edukadores está muito longe de ser uma obra prima, mas coloca algumas questões muito relevantes que foram abordadas na aula, mas que gostaria que pudessem ser melhor sistematizadas aqui no blogue.
O protagonista Jan afirma que não vivemos numa democracia mas numa ditadura do capital. Pior: o capitalismo depois de na segunda metade do século XX ter conseguido níveis de protecção aos trabalhadores muito elevados, parece agora regressar à sua forma primitiva, típica do século XIX com salários cada vez mais baixos, desemprego, ausência de direitos laborais, trabalho precário e fim acelerado do Estado Social. Enquanto isto sucede, a classe média vai desaparecendo e surgindo um fosso crescente entre os detentores da riqueza e os que nada têm.
Grande parte da abundância foi criada à custa da sobre exploração dos países mais pobres do chamado terceiro mundo. os ténis, as roupas e muitos objectos de marca ou sem ser de marca, são fabricado nos países da Ásia, muitas vezes por crianças a ganharem salários miseráveis que permitem custos de produção muito baixos e preços também baixos.
O sistema capitalista dá sinais de entrar em colapso. Não é a primeira vez que acontece, nem será a última. Esta crise causada pela ganância especulativa dos mercados internacionais, exterioriza apenas os sinais de crise que já se acentuavam: insustentabilidade de manutenção dos sistemas de segurança social, crises ambientais gravíssimas, falências dos modelos sociais da Europa perante o aparecimento de economias emergentes como a China, a Índia e o Brasil, desemprego e precarização do trabalho.
Na minha opinião, o capitalismo, que eufemisticamente chamam de economia de mercado, é um regime economicamente irracional, ambientalmente criminoso, socialmente injusto e culturalmente alienante. Se a humanidade o conseguisse substituir por outro melhor, seria excelente para quase toda a gente.
Mas aqui é que bate o ponto principal: que alternativas existem ao capitalismo? O comunismo, surgiu cheio de boas intenções, mas sob a batuta de Estaline ou Mao, tornou-se numa monstruosidade sem nome, uma ditadura sanguinária e repressiva que não trouxe nem liberdade nem bem estar aos povos (haveremos de ver um filme sobre o comunismo neste ciclo); a social-democracia, aparentemente conseguiu criar o equilíbrio entre alguma igualdade e a liberdade, com um forte sector público na economia, mas os modelos entraram em derrocada e mesmo nos países escandinavos, aqueles que melhor protagonizaram este modelo, resvalaram a passos largos para o capitalismo, ainda não selvagem, mas cada vez menos regulado; as outras formas de socialismo (autogestionário,democrático, poder popular, etc.) nunca passaram de utopias.
Afinal, qual é a alternativa? Porque é que o capitalismo tem resistido a tudo e perpetua-se apesar das injustiças? Será que é o capitalismo que melhor corresponde à natureza humana? Mas, afinal o que é a natureza humana, se é que existe alguma? É a alienação constante, da telenovela e do futebol? É o querer ter em vez de ser? É dizer isto é meu, em vez de dizer isto é nosso? É a subjugação absoluta à ganância do lucro e do dinheiro? É privilegiar o ter em vez do ser?
Duas notas finais para concluir este comentário: Sabem quem lê as revistas de colunáveis e de vips, tipo Caras? Não são os ricos, mas sim os pobres. Não os move face aos ricos nenhum sentimento de indignação ou de revolta por serem explorados por eles, pelos Belmiros e Amorins deste país. O que os move é a inveja. Os pobres não pretendem acabar com o sistema capitalista. São como o raptado do filme: ambicionam tornar-se um deles.
Finalmente, uma nota sobre a competitividade. Quando eu andava no liceu havia um tipo que aferia o grau de satisfação com as suas notas nos testes pelas notas dos outros. Se ele tivesse 12 e outros tivessem 10, ficava todo satisfeito; mas se tivesse 14 e outros tivessem 16, ficava com umas trombas terríveis. Não será o mesmo com o dinheiro? As pessoas querem dinheiro só para terem acesso a bens, ou também para marcarem uma diferença face aos que não o tendo não podem aceder a esses bens?
Se esta segunda hipótese for a verdadeira (e desconfio que é) acho que está tudo perdido...
Jorge
Hoje em dia só nos interessamos por aquilo que é superfulo, por aquilo que na reãlidade não tem interesse algum.. Gostamos daquilo que, por vezes, nos faz perder tempo..
ResponderEliminarNão existe alternativa viavél ao capitalismo, na minha opinião...
O homem desde que nasce, ainda nem tem percepção de si próprio, já os seus pais e outros lhe estam a encutir a politica de consumo..
è dificil quando nos apercebemos que nós nascemos, estudamos ( para ter uma boa qualidade de vida), trabalhamos (para nos sustentarmos) e morremos, e o que resta? tudo o que deixamos vai directamente para outros, isto tudo para mostrar que vivemos com e na base apenas do dinheiro, é ele que faz e controi a nossa vida e não há volta a dar..
A competitividade e a inveja são como sentimentos insasiaveis, aqueles que por mais que queiramos não conseguimos controlar.. estão-nos "no sangue"
às vezes podemos ter pouco mas se sabemos que ninguém tem mais que nós inevitavelmente nos conformamos e nos vangloriamos por aquele pouco que consguimos.
A televisão, a publicidade e as revistas fazem-nos criar protótipos de pessoas, pessoas ideias, que queremos por bons, ou maus motivos, seguir.. idolatramos pessoas e mais que isso, o que elas possuem.
Vivemos num tempo em que a nossar do possuir sobrepoe-se ao ser...
Eu acho que há muitas pessoas que tomam o mero papel de espectador muito facilmente, ou por vezes nem este tomam. Por exemplo, quando se tenta falar do novo orçamento com algumas pessoas, e elas recusam-se a ouvir porque não gostam do que ouvem ou porque as incomoda. Entregam por completo o papel de controlar a situação a outras pessoas, que parecem encarar como superiores, e inferiorizam-se por completo ao pensar que não podem ter qualquer impacto no que se passa à sua volta, e que a sua opinião pouco ou nada conta, por isso nem vale a pena formar uma. Simplesmente se deixam dominar, nem tentam formar as suas próprias ideias porque parecem pensar que as grandes decisões tomadas pelas pessoas à sua volta não são passíveis de ser mudadas, pelo menos não graças a elas. Encaram a situação como o tempo - hoje faz sol, amanhã choverá, e eu não posso fazer nada para mudar a situação, nem vale a pena comentar, fará alguma diferença afinal? Não gosto, não quero ouvir e reduzo-me à minha ignorância. Mas por algum sítio se tem de começar.
ResponderEliminarOs mais pobres não só os invejam como parecem sentir-se mais humanizados quando entram em contacto com produtos do género. Deixam-se entregar por completo e parecem mesmo admirar quem por vezes apenas facilita a situação de miséria em que estão, não se dão conta do trabalho que fazem e do que lhes é tirado. Parece a ignorância e ingenuidade no seu estado puro.
Ainda acho que as pessoas vivem muito dessas comparações, onde se estabelece os nossos objectivos a partir dos objectivos dos outros. Se ele faz aquilo, eu vou fazer um bocadinho mais. O desejo de cada um é basicamente a posse de algo inacessível a outra pessoa, é por aí que a maior parte das pessoas estabelece os seus limites.
Podemos dizer muita coisa sobre o filme Edukadores mas a verdade é que aquele homem nos representa a todos, somos nos que damos importancia ao que é supérfulo, ao que não precisamos. A mensagem é bastante clara, mas como discutimos na aula passada, qual é a alternativa ao capitalismo? Será que HÁ alternativa ao capitalismo? Na minha opinião não há, e já estamos tão habituados à nossa culturar de comprar em massa, a cultura dos centros comerciais, que só se mudarmos a nossa mentalidade é que podemos mudar a sociedade. É isso que o filme Edukadores nos quer transmitir, que a mudança está em nós, que é preciso haver uma revolução para que as coisas mudem. A questão é se alguma vez vão mudar..
ResponderEliminarA análise do momento presente é sempre muito difícil, pois é necessário algum distanciamento temporal para se poder enquadrar e compreender determinados acontecimentos. Contudo, quando analisamos o que a História nos ensina, verificamos que existe uma evolução cíclica em que muitas vezes os “erros” se repetem. Tal como no livro “Animal Farm” de George Orwell em que os porcos acabaram por ocupar a posição dos seres humanos que tinham sido banidos. (Vale a pena ler este livro!)
ResponderEliminarNo período pós 2ª Grande Guerra Mundial, em que grande parte da Europa ficou destruída, viu-se prevalecer a Democracia, por oposição aos regimes ditatoriais e, com ela, a defesa da liberdade e do bem-estar individual. No entanto, começou a verificar-se que o poder económico se começou a sobrepor ao poder social. A globalização económica, com a criação da Comunidade Europeia e com o aparecimento do euro, que supostamente poderia ter ajudado os países a encontrarem um patamar de equilíbrio, na prática, constatamos agora, criou uma falsa noção de que riqueza e de abundância que levou a grande maioria das pessoas a viverem acima das suas posses e a endividarem-se. E esse consumismo levou as grandes empresas a aumentarem ainda mais a sua produção, principalmente através do recurso a mão-de-obra barata nos países do terceiro mundo.
As pessoas tornaram-se escravas dos bancos, escravas dos seus desejos de ostentação de riqueza, escravas do momento presente. Deixaram de se preocupar com o futuro. A maioria das pessoas têm, de um modo geral, uma memória curta, em especial para o que é desagradável e o ser humano tende a procurar o bem-estar e a segurança individual, criando uma espécie de redoma mental em que procura evitar confrontar-se com o facto de que amanhã pode já não ter dinheiro, pode já não ter saúde ou pode já não ter um planeta habitável. A máxima adoptada por muitos parece ser: “Vamos ser felizes hoje, amanhã logo se verá!”
… (continua)
… (continuação)
ResponderEliminarSó que infelizmente, parece que esse “amanhã” já está a chegar e as pessoas não se encontram preparadas para o enfrentar.
Não só as pessoas, mas também as empresas e mesmo as macro-estruturas económicas e sociais têm um ciclo de vida: nascem, crescem, atingem o seu auge, declinam e morrem. Acho que a nossa sociedade se encontra numa fase de declínio acelerado e que provavelmente se aproxima a passos largos da sua morte. Esta evolução é, provavelmente, inexorável e é provável que se vão atravessar tempos muito difíceis.
Se as empresas e os indivíduos entram num ciclo vicioso auto-destrutivo. As condições de emprego são mais precárias, os ordenados mais baixos, o desemprego aumenta, o poder de compra diminui, as empresas vendem menos e diminuem os seus lucros, despedindo e agravando ainda mais as condições dos trabalhadores. E entra-se em Recessão! Os pobres cada vez em maior número e cada vez mais pobres. E mesmo muitos ricos a caírem subitamente na pobreza sem passarem sequer pelos patamares intermédios. Veja-se o que aconteceu na América na Grande Depressão.
Quando a economia bate no fundo surgem provavelmente convulsões sociais. A fome é o grande motor das revoluções. Assim, é previsível que comecem a ocorrer motins, revoltas populares, roubos, violência e destruição. Mas é também de esperar que, em seguida se entre num novo ciclo de recuperação. Provavelmente não será exactamente nenhuma das alternativas conhecidas. O comunismo já mostrou o que valia, a democracia deu o que deu, o capitalismo é o que está à vista. Mas é possível que surja um outro modelo social, político e económico que ainda não conseguimos vislumbrar com clareza neste momento.
Não podemos tomar uma posição de avestruz que mete a cabeça na areia para não ver o que se está a passar, nem uma atitude derrotista de que está tudo acabado e não há nada a fazer.
Na minha perspectiva, devemos manter uma atitude muito lúcida e realista, mas também, na medida do possível, construtiva. Vamos atravessar tempos difíceis. Alguns irão sucumbir, mas muitos irão sobreviver. Não me refiro a uma sobrevivência meramente económica, mas, acima de tudo, dos princípios morais e dos valores que devem reger o indivíduo e a sociedade. Quando as pessoas deixam de “ter”, o instinto de sobrevivência irá levá-las a procurar “ser”, a procurar outras fontes de satisfação espirituais em vez de materiais.
Eu não acredito que esteja tudo perdido!