sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Rosetta Parte I - comentário

Acho que neste caso em particular, qualquer outra tentativa de representar a situação que se passa no filme seria um eufemismo do que ele é realmente. Como foi dito, não era suposto ser agradável, uma banda sonora e fotografia elaboradas seriam um desvio. É animalesco, completamente cru, como senti também com o Lola. A Rosetta não age com artifícios ou tentativas de embelezamento do que faz, ninguém o tenta no filme. Então porquê filmá-lo dessa maneira? Não há nada que justifique esses pormenores quando se tenta mostrar a situação de uma forma despida, em que não há aquelas cenas à Hollywood, com pausas e grandes planos, como eye candy para o espectador. Aliás, o filme está longe de se aproximar desta expressão, tem a sua própria beleza atípica, faz o espectador sair de uma posição confortável, é um desafio afinal. Aliás, até perceber a nossa posição em relação a ele quando termina parece difícil (digo eu...pelo menos de imediato).

Ela tenta escapar a uma vida como a da mãe e, se parece ter elevados princípios para esta, quando se trata dela própria acaba por ser uma questão de sobrevivência, em que o que resta dos seus princípios ainda lhe faz sinal em algumas situações, mas nem sempre são ouvidos. Até a maneira como a câmara é controlada dá uma maior sensação de aproximação a Rosetta, custa a habituar, mas faz todo o sentido. Ao fim e ao cabo, é toda esta falta de beleza estereotipada que o torna belo. Ela até fala consigo mesma para se tentar convencer de que vai tudo correr bem, mas isso é o que se diz sozinha ao adormecer, o acordar é bem diferente, muito mais áspero e austero. Ela raspa a asa em todas as situações possíveis, mas nenhuma delas parece duradoura, satisfatória ou convincente. A cena final só vem demonstrar todo o desalento e amargura a que isto leva, as pessoas por quem ela passou por cima no meio do processo não desaparecem, a sua própria tentativa final de desaparecer também não é bem sucedida…Realmente dá a volta ao estômago, e se até aí alguns tiveram dificuldades em mostrar-se emotivos graças à sua atitude dura, aqui torna-se difícil não reagir.

Não há compaixão nenhuma na maneira como é transmitido o filme, a Rosetta foi endurecida pela vida e, deste modo, esta vida terá de ser representada de uma forma implacável. É uma visão lúcida da realidade, desmascarada.


Isa

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