terça-feira, 26 de outubro de 2010

Rosetta: um murro no estômago

O filme dos irmãos Dardenne (Luc e Jean Pierre) é, do ponto de vista estético um filme singular e completamente diferente de tudo o que vimos até agora: não tem actores profissionais, não tem música, nem efeitos fotográficos ou especiais de qualquer tipo.

O filme, o 2º dos irmãos Dardenne, gerou uma tremenda controvérsia em Cannes. Ganhou a palma de ouro de 1999 triunfando sobre o hiper favorito Tudo Sobre a Minha Mãe de Pedro Almodovar e deixou os organizadores do festival completamente embaraçados com a decisão do júri presidido por David Cronemberg. Numa altura em que Cannes se virava rapidamente para as superproduções e para um piscar de olhos cada vez mais insistente ao cinema de Hollywood, dar o principal prémio do maior festival do mundo, a um filme rude e artesanal, só poderia passar mesmo na cabeça de Cronemberg.

O filme relata a experiência de uma jovem proletária sem instrução nem bons sentimento que é uma verdadeira anti-heroína. Ao contrário dos filmes marxistas tradicionais em que os operários têm consciência de classe, bons sentimentos e querem mudar o mundo e terminar com as injustiças, em Rosetta proporciona-se a exploração em estado bruto e sem romantismos. Rosetta não quer fazer nenhuma revolução, nem ser solidária com os seus irmãos de classe,nem sequer denunciar a ordem social dominante: só se quer safar, arranjar um emprego a qualquer preço que lhe permita sobreviver numa selva social sem contemplações nem compaixão.

Por isso o filme é tão rude e moralmente quase sórdido. Na altura em que o vi nas salas de cinema, foi como se tivesse levado um valente murro no estômago das minhas convicções mais profundas em matéria política.

Com Rosetta, entramos num outro tipo de cinema, aquilo que se convencionou designar por cinema de autor. São filmes mais arrojados do ponto de vista estético, nem sempre lineares, que desafiam os cânones mais tradicionais de fazer cinema. São filmes que, normalmente, não têm muitos espectadores, mas que todos querem recordar passados uns anos, quando se fazem as listas dos melhores filmes.

Podem encontrar mais alguma informação crítica neste link:

http://www.cinema2000.pt/ficha.php3?id=501

Jorge

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