sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Democracia e transparência

Uma das múltiplas lições que se pode retirar do filme de Capra prende-se com o facto do poder político parecer ser completamente controlado pelo poder económico. Taylor controlava tudo: eleições, opinião pública, assuntos de estado, etc.

Gostaria de deixar um pouco de lado as questões de cariz económico e centrar-me mais nas questões políticas. Se o poder económico controla e dirige o poder político, é a própria democracia que está em causa. Bem ou mal, somos nós que elegemos os nossos representantes políticos. Mas quem elege os donos dos bancos, os Belmiros ou os Amorins? Qual a legitimidade democrática dessas pessoas para condicionarem o poder político?

Pensem agora na actual crise mundial e europeia. Ela foi provocada por especuladores, bolsistas e não só. Quem são eles? Quem votou neles? Quem são os famosos mercados internacionais que parecem brincar com a dívida portuguesa e obriga a classe média e os pobres a fazerem tantos sacrifícios? Quem elegeu as empresas de notação de rating? Afinal vale a pena votar em políticos para nos representarem e governarem, quando eles no fundo são paus mandados dos grandes interesses económicos? Não andamos todos a ser enganados? Não seria preferível que o Belmiro e o Salgado do Bes e mais o Amorim se apresentassem ás eleições em vez do Sócrates ou do Passos Coelho? Afinal, o que é a democracia?

Apenas mais um pormenor; Há alguns anos um dos mais proeminentes dirigentes do PS, ex-ministro, abandonou inesperadamente a vida política e foi contratado a peso de ouro para dirigir o maior grupo de construção civil português. Porque terá sido, quando a esse dirigente não lhe era reconhecido no seu curriculum nenhum especial mérito enquanto gestor de empresas, uma vez que quase toda a sua vida foi dedicada à política? A resposta não é difícil se pensarmos que a esmagadora maioria das obras realizadas em Portugal são adjudicadas pelo Estado ( escolas, estradas, pontes, caminhos de ferro, etc.).

Por isso, 70 anos depois o filme de Capra é tão actual. Sabem porque é que nos EUA não é possível aprovar nenhuma lei que condicione o acesso dos cidadãos ao porte de armas e as munições se possam comprar de forma tão simples numa estação de serviço como se fosse um pacote de pastilhas? Porque o lobby mais poderoso dos EUA chama-se RNA e defende o uso e posse irrestritos de armas.

Pessoalmente acho o Michael Moore um mau documentarista. Mas, que grande parte do que ele diz é verdade, isso não pode ser negado, sobretudo no que diz respeito ao controlo do poder político pelos grandes grupos económicos. Durante anos o presidente Bush empenhou-se em mostrar que as alterações climatéricas eram uma falácia. Servia apenas os interesses das grandes empresas americanas ligadas às energias poluentes, sobretudo as petrolíferas que não queriam que se questionasse a influência que o desregrado consumo de energia, que eles chamam o "american way of life" tem sobre as alterações climatéricas. E isso, não é apenas uma injustiça: é uma indecência.

Jorge

3 comentários:

  1. Falando em indecências.. Quando o stor falou em Bush e na opinião deste quanto ás alterações do clima, assunto qual tem sido alvo de cimeiras e inúmeras discussões, é premiscuo referir também o assunto que deu pano para mangas ainda este ano, a gripe A.. Também a industria farmacêutica por vezes inventa e "lança virús" para depois beneficiar dos lucros na sua cura. como é que é possivél que uma pandemia, com o grau de relevância e preocupação que teve tenha "acabado" em pouquisimos meses? A resposta possivél é: manobra da indústria farmacêutica que, porventura, se encontrava em queda..
    Hoje em dia, a sociedade e principlamente o governo, inventa e arranja problemas para esconder outros, esses sim muito graves..
    Por exemplo o caso bpn.. já se contava através de "boatos" da imprensa/media,meses antes do escandalo mesmo rebentar, que o banco bpn se encontrava numa situação finaceira dificil mas foi com a crise financeira mundial que se confirmou o buraco finaceiro deste banco.. O banco nao tinha dinheiro para cobir os depositos dos clientes..
    É importante analisarmos a personagem Taylor, ele controlava tudo as eleições, opinião pública, assuntos de estado, media eram um persuasor nato! como é que é possivél que, numa sociedade "democrática" em que vivemos, o poder esteja tão intensamente centrado?? Somos manipulados, enganados todos os dias.. Já ninguém serve o país mas sim serve-se dele!
    Todos os dias idolatramos pessoas, gestos e ideias.. Desde pessoas simples que pensamos ser a nossa inspiração desde pessoas com grau de importância na sociedade? Mas não pensamos bem que o que eles parecem ser, não é o que eles são realmente...

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  2. O facto do poder económico controlar e dirigir o poder político é, sem dúvida, uma verdade irrefutável. Hoje-em-dia toda a gente vive para o dinheiro. Por onde quer que passemos na rua, verificamos que o tema de conversa principal é este. Em alguns casos este pensamento compulsivo deve-se apenas à necessidade de subsistência, mas noutros casos, que representam a maioria da sociedade, deve-se essencialmente à ambição de alcançar bens materiais e poder. Esta obsessão pelo dinheiro faz com que as pessoas não olhem a meios para atingir os fins, "atropelando" as pessoas à sua volta para chegarem onde querem. Mesmo que haja pessoas honestas que cheguem ao topo por trabalho e mérito próprio (e admito que tais pessoas existam), rapidamente se tornam como os restantes indivíduos que se encontram no topo da hierarquia, fazendo qualquer coisa para que não percam o lugar em que se encontram na sociedade. Veio-me agora à cabeça a conferência que houve na escola sobre a Implantação da República, onde nos foi explicado que os liderem republicanos prometeram mundos e fundos ao sector do operariado, fazendo-os crer que a república traria liberdade de expressão para toda a gente. No entanto, após a revolução verificou-se que os lideres republicanos rapidamente mudaram de mentalidade, ao restringirem o direito de voto aos elementos do sexo masculino que sabiam ler e escrever (parte muito reduzida da sociedade da atura). Esta atitude evidenciava, assim, a vontade de se manterem no poder incondicionalmente e a qualquer custo.
    Com isto, penso que o modelo de sociedade que se encontra actualmente em vigor não apresenta sinais de melhora e dificilmente terá um final feliz. A única luz ao fim do túnel que consigo vislumbrar é o facto de que, algum dia, um dos partidos políticos de menor relevância na nossa sociedade possa vir a chegar ao poder, alterando drasticamente determinados aspectos do nosso país. E mesmo que isto venha a acontecer, estou um pouco céptica sobre se o resultado será positivo...

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  3. Se por um lado, com o Taylor no filme, parecia necessário escavar mais fundo para lhe encontrarem todos os podres, e para aquela imagem ideal do Smith se quebrar, aqui em Portugal parece tudo tão mais transparente. Então com a história do orçamento, e com as preocupações de alguns, que porventura não saem tão afectados, em fazer mostrar que não estão a gostar do que se está a passar, mostra uma manipulação irrisória daqueles em quem votamos, ou podemos votar no futuro... Tinha contado aquela história do juíz, que se bem me pareceu, pôs publicamente em causa a maneira como ia começar a julgar as pessoas do PS ou afins, porque não está satisfeito, ou muitos dos juízes em geral, com algumas medidas. Ora quando se começa com estratagemas destes, já não se sabe onde isto pára, e quantas mais vezes deixarão eles de ser imparciais. É mais um dos inúmeros ciclos viciosos, que esta sociedade parece idolatrar, entra-se lá dentro e uma pessoa já não pode ter confiança em nada do que dizem depois de comentários do género. Parece então, mais uma vez, que este senhores em quem podemos votar têm medo disto, pois ficam logo de perna atrás, tanto que ninguém processou ou coisa parecida este senhor juiz que se sai com bocas tão lamentáveis. É ridículo, se realmente percebi o que se estava ali a passar, que já começo a desejar que não, não há outras palavras. Mas não só, também se vê logo os senhores com os papéis mais importantes nestes bancos a aparecer mais frequentemente em público, e onde não é comum aparecerem se não em casos de extrema importância, como que para deixar a mensagem de que não estão a gostar de algumas coisas que se andam a passar, como uma ameaça ou seja lá o que for que lhe quiserem chamar. São assim umas aparições subtis, umas vezes sim, outras vezes escapa-lhes a subtileza. A verdade é, isto resulta, e mais parece que andamos, ou iremos no futuro, no meu caso, a votar em fantoches de outros senhores que nos escapam das mãos. E está claro que isto soa logo a desculpa para o desinteresse na política para alguns (é mau, não gosto, não oiço!), coisa que só vem a piorar a situação, mas há quem ache que a posição mais confortável é a ignorância. Uma coisa é certa, não hão-de ir muito longe com ela.

    Isa

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