Não queria centrar-me muito nas questões filosóficas relacionadas com o filme de Alain Resnais, uma vez que as iremos discutir na próxima aula juntamente com o filme de Steven Spielberg, Relatório Minoritário. Gostaria apenas de referir algumas questões formais deste filme.
O que me atrai mais neste díptico Fumar/Não Fumar, é aquilo que Alain Resnais sempre considerou como uma obra aberta. O cinema não tem que ser forçosamente obrigado a uma estrutura narrativa linear. embora eu não tenha rigorosamente nada contra ela. Resnais sempre quis envolver os espectadores de alguma forma na construção do próprio filme. Os seus filmes, sobretudo até à década de 70 (Resnais tem 87 anos e ainda filma)são quase sempre inconclusivos e enigmáticos. O espectador é livre de se apropriar do próprio filme da forma que achar mais indicada, porque a obra é, em si mesma, aberta e permite variadas interpretações. Esse cariz dúbio, aliado ao tema dominante no cinema de Resnais (O tempo e a memória) fazem dele um cineasta verdadeiramente único na história do cinema. Curiosamente, Resnais nunca trabalhou com textos seu ao contrário de Bergman ou Woody Allen, por exemplo. Ele prefere trabalhar textos de outros autores (romances, peças teatrais)criteriosamente escolhidos e aos quais ele transmite o seu toque inconfundível.
Reforçando a ideia do indeterminismo referida pelo Alexandre no seu post e reforçado pelos comentários dos outros colegas, este filme centra-se no «ou bien» onde todas as possibilidades coexistem e onde a linha do destino é determinada frequentemente de forma acidental. Bastava um pequeno pormenor para que tudo fosse substancialmente diferente. Ao insistir obsessivamente nas pluralidades possíveis dos finais, ao regressar a um determinado ponto do tempo, para fazer as personagens falar e agir de forma diferente, Alain Resnais coloca-nos perante a grande interrogação central da sua obra: afinal o que é o tempo? Como poderíamos nós sermos diferentes se tivéssemos agido de forma diferente num determinado período da nossa vida. Reparem que o filme se passa apenas em quatro momentos diferentes: hoje, cinco dias depois, cinco semanas depois, cinco anos depois.
É, simultaneamente um filme que se constitui como uma homenagem ao teatro. Toda a estrutura do filme segue os recursos e as técnicas teatrais, numa espécie de peça em quatro actos e muitos apêndices, com um fabuloso desempenho dos dois actores e uma magnífica direcção.
Para mim, foi juntamente com o Palombella Rossa, o filme que mais me agradou de todos os que vimos.
Voltaremos a falar dele na próxima aula.
Jorge
Olá a todos!
ResponderEliminarConcordo plenamente com aquilo que o stôr disse. E realmente, a reflexão do que é o tempo é algo interessantíssimo. Eu concordo com o Einstein quando ele diz que não há tempo, mas sim movimento. Realmente se pensarmos, o que aconteceu são memórias, alías, quem é que nos ganrante que não foi uma ilusão? O futuro, falamos muito nele, vivemos a pensar nele, nunca chega porque estamos sempre no hoje, que também pode ser um ilusão. Muito complicado!
Alexandre
Stôr, já agora... apesar dos "ou bien" serem um bocado chatos, será que não podemos ver o "fumar", é que tinha piada ficarmos com os dois vistos.
ResponderEliminarAlexandre
O mais interessante deste filme foi sem dúvida perceber que simples atitudes podem comprometer a nossa vida e dar-lhe outro rumo muitas vezes completamnete diferente. Nomeadamente quando se tratam de questões sociais e de relacionamentes, de atitudes que temos com outras pessoas é sempre presmícuo avaliar como as nossas decisões podem potencializar ou não situações tão diversas.
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