quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Palombella Rossa

Queria apenas dizer que gostei bastante do filme que vimos hoje, Palombella Rossa de Nanni Moretti.

Confesso que sem o esclarecimento do professor não percebi totalmente o contexto do filme.
Com ele também não fiquei própriamente elucidado sobre tudo o que se passou, embora me tenha ajudado a situá-lo, o que é sem dúvida essencial.

No entanto, imaginemos que a minha percepção não foi sido alterada por qualquer tipo de influência externa.
Aquilo que vi foi absolutamente caótico. A realidade e a os pensamentos de "Michele" completamente misturados. Ele fala sozinho, mas estará a falar sozinho?

As várias personagens-tipo que o perseguem, o católico e o teólogo, o sindicalista, os partidários: fragmentos da sua mente, todos os argumentos que ouviu na sua vida e que tenta reconstruir.
Tudo isto é exposto para ilustrar o raciocínio que a personagem principal faz e fará para descobrir porque é comunista. No entanto, pouco me pareceu muito claro.
Além disto, os treinadores e o árbitro parecem querer obter a aprovação e ouvir os conselhos dos seus "ídolos", digamos, que os perseguem durante o jogo. Michele aparenta rejeitar estrangeirismos "americanos" e procura o seu verdadeiro eu. A própria simbologia do jogo ainda está um pouco confusa na minha cabeça.

A inclusão do Dr. Jivago na equação pareceu-me brilhante, mas sinceramente não sei explicar porquê. Algo sobre uma visão romântica daquele período da história - contra a crueldade do regime do Czar e contra a do comunismo, defensor de algo mais livre - em contraste com a realidade...
O abandono do jogo por parte dos espectadores e dos jogadores para ver o mesmo é também muito interessante, como que o abandono de tudo o que é político a favor do entretenimento.

O filme tem um humor muito peculiar: a música que aparece do nada, os incessantes "lembras-te?" (não vou fingir que tenho um extenso conhecimento da língua italiana), as reacções praticamente esquizofrénicas de Michele, o treinador da sua equipa, os berros que nos acompanham durante a maioria do filme...o próprio acidente de carro!

O final foi igualmente enigmático, algo bem à moda do 2001: Odisseia no Espaço, ou algo do género.

Bom, provavelmente já devem ter descortinado que tenho uma ideia muito ténue do que falo. Creio que preciso de ver este filme mais vezes para o perceber, mas ao mesmo tempo há algo que me diz que talvez isso seja desvirtuá-lo. Hei-de atirar uma moeda ao ar. Ou um palhaço.

1 comentário:

  1. Exacto, ainda que mais alucinado que o Odisseia, ou pelo menos num sentido diferente, é mesmo daquelas coisas que temos de ver várias vezes para entrar completamente dentro do filme. Quando começamos a fazer ligações, e a tentar interpretar o que realmente se passa ali, quase que ficamos de boca aberta com algumas das coisas e, ainda assim, sentimos sempre que nos escapa alguma. Já com o Odisseia começas a pensar em questões como a do primata no início e a cabeça daquela nave espacial, o Dave, passados anos e anos, terem exactamente o mesmo instinto com o seu espaço é invadido, têm a mesma violência e precisamente as mesmas reacções, entre muitas outras coisas.

    Por vezes interpretava aquela história dele repetir tudo em voz alta quase como se se estivesse a tentar convencer de que aquilo realmente fazia sentido, outras, como quando ele diz “sou ateu e materialista”, pareceu-me quase que ele tinha aquilo decorado e não lhe dizia grande coisa naquele momento, como se já estivesse a mecanizar as respostas…Apenas num dia tenta reduzir a sua vida a palavras que sintetizem o que se passou, durante um jogo que ele sempre praticou, parece fazer parte dele, mas que realmente nunca gostou, no fundo nem aquele ambiente lhe é familiar. Só mostra que não se “cria” exactamente a mesma pessoa e a mesma personalidade em épocas diferentes, e a enormidade de informação com que entra em contacto naquele dia só vem a desorientá-lo ainda mais. É interessantíssimo como ele repete todos os movimentos, os repete em voz alta, inclusive o gesto nazi que vê no televisor, absorve tudo como uma esponja e tenta encontrar uma linha a seguir. Se formos pensar bem, se o filme não fosse confuso não seria um retrato fiel do que se passa naquela cabeça. Ao mesmo tempo que tenta assimilar os pontos de vista do partido comunista, parece já ver possíveis resultados adversos de um movimento. E então, o que fazer? Começa-se naquele dia com novas ideias? Começa-se um processo de catarse?

    Também senti o mesmo em relação à cena do abandono da piscina e do Dr.Jivago, e também não sei explicar precisamente o que aquilo foi. O que parece ridículo, mas há qualquer coisa ali de muito chamativo. Vivem o jogo até um certo ponto e observam como espectadores o que se passa no ecrã, ou, se formos pensar bem, também o inverso funciona, abandonam o jogo e decidem depois transferir a sua exaltação e emoção para o que se passa no ecrã, a tal troca pelo entretenimento. Também me pergunto se ao tentarmos explorar cada ponto do filme, dissecar cada coisa e interpretá-la quase que obsessivamente, se não estaremos a tirar a beleza ao filme e a fazê-lo demasiado lógico, se não estaremos a tirar-lhe qualquer rasto de ambiguidade.

    E pronto, vou terminar a minha divagação, que se podia perfeitamente prolongar pelo resto da manhã.

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