sábado, 11 de dezembro de 2010

"12 Homens em Fúria"


Olá a todos!
Em primeiro lugar, obrigado a Isa pela excelente sugestão que fez para o filme que vimos: “12 Homens em Fúria” de Sidney Lumet.
Em termos estéticos, estamos a falar de um filme interessantíssimo porque apesar de decorrer praticamente durante 96 minutos dentro de uma sala, não se torna nada entediante.
É extraordinário pensarmos que todo um raciocínio desenvolvido a partir da personagem do Fonda leva a que de 11 votos “guilty” cheguemos a 11 votos “not guilty”. Obviamente que na “vida real” este cenário teria sido impossível, porque o rapaz nunca teria sido absolvido. Provavelmente, tendo em conta o seu estrato social…
Este filme, é nada mais, nada menos, que um retrato de alguns dos membros da sociedade. É exactamente por isso que não sabemos o nome das personagens (jurado 1, 2…) que são tipo. Desde o homem pouco culto, que só se interessa por desporto ao respeitável corrector de bolsa. É nos apresentada toda uma panóplia.
Acaba por ser interessante reflectirmos sobre quem é que toma decisões na justiça..e por conseguinte a questão da sua parcialidade ou imparcialidade. Para mim, continua a ser óbvio que o direito tem uma competente objectiva e subjectiva. Objectiva, pelos valores fundamentais a que o direito apela, subjectiva porque quem acaba por “escrever” esses direitos fundamentais são os homens (que não são “tábuas rasas” como foi dito na aula) e porque a aplicação das penas parte da interpretação da lei. A isto acrescentam-se a figura dos jurados.
Já se imaginaram a ser julgados, por um crime de homicídio, em legitima defesa (por exemplo), e a vossa possível absolvição, estar dependente de alguém que se quer despachar para ir ver um jogo de futebol? É muito complicado criar perfis de jurados, a menos que fechemos essas pessoas numa sala e digamos qualquer coisa como: “para seres jurado, tens que dissertar sobre o determinismo”, entrando numa certa alienação de quem é que tem direito a ser cidadão. É a mesma questão que se coloca em relação se todas as pessoas estão aptas a votar. O aleatório domina, mas será que há outras opções. Como é que deveria de ser a melhor forma para escolher jurados?... Ou eleitores?
Alexandre

2 comentários:

  1. O facto de se passar sempre na mesma sala é claramente compensado pela caracterização mais trabalhada de cada personagem. Não só o facto de serem personagens-tipo, como foi dito na aula, e que, como é óbvio, seria necessário para representar pontos de vista diferentes naquela avaliação do assassínio do pai, não tinha interesse nenhum se tivessem semelhantes experiências de vida, mas também na exploração de diferentes perspectivas (visuais). Até algumas cenas mais teatrais o mostram, em que as personagens se posicionam em locais e formas diferentes, consoante a sua posição em relação ao assassínio, guilty ou not guilty, o que, para mim, até dá um toque bastante interessante ao filme, inclusive o salvador vestido de branco, tem a sua piada.

    Quanto ao exagero ou não do que foi feito pelo Fonda, julgo que dizer que se gostou do filme não implica dizer que não se acha alguma daquela argumentação exagerada. Penso que o objectivo é mostrar a linha ténue entre o guilty e o not guilty. Claro que, tal como o julgamento inicial é precipitado, com pouca atenção ao indivíduo acusado, também aquela exploração dos acontecimentos o é. Tal como o Alexandre disse, duvido que muita gente fosse atrás daquela conversa na vida real mas, ainda assim, é uma perspectiva muito interessante. Acho que o apelo é para não julgar superficialmente, e não, esmiuçar tudo à procura de factos a nosso favor onde se calhar não há, levando-nos quase a recriá-los à nossa medida. Mostra a necessidade de empenho de quem vota naquela sala.

    Quanto à escolha de quem pode ser jurado ou não, mais uma vez, julgo que é algo difícil de estabelecer. O facto de uma pessoa ser mais instruída não quer dizer que esteja mais apta para esta análise. Se calhar está mais apta para determinado tipo de raciocínio, mais lógico, talvez fosse a pessoa que naquela sala sabia o tempo de passagem do comboio e afins, coisas mais científicas se calhar. Mas há outro tipo de aptidões também necessárias, outras perspectivas, talvez mais a nível social, que essa pessoa poderá não ter. Além disso, aqueles perfis que fazem dizem pouco do que uma pessoa é, se não quase nada. Claro está que aquele último homem a ser convencido não tinha escrito em nenhum sítio sobre a sua sensibilidade/trauma devido aos problemas com o próprio filho, sabe-se lá se alguma uma biografia o diria. É algo muito difícil de analisar, se é que as próprias pessoas sabem de alguma desta "carga pesada" que carregam consigo, se é que só elas é que não a vêem, se alguém a vê sequer... Por onde se estabelece o limite? E não será isto elevar uns e reduzir outros quando se tratam de backgrounds incomparáveis? Qual é a perspectiva mais necessária? A mesma coisa se aplica ao eleitores em geral. Ás vezes até mete dó a argumentação de algumas pessoas que vemos na televisão a justificar o seu voto em campanhas e afins, até doí, quer se foquem mais no físico que noutras coisas de mais interesse, seja o que for... Mas quer dizer, quem é apto afinal?
    Não me querendo justificar com séries (mas já o fazendo), já que não sei até que ponto aquilo que se faz é verdade, mas ainda assim tenho esperança que seja, o que se vê são advogados e afins mais interessados em escolher jurados que tenham perfis que lhe dêem a sensação de favorecer a "causa que defendem". É difícil escapar à subjectividade.

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  2. Concordo contigo, naquilo que disseste, no sentido em que a pessoas mais instruidas não são necessraiamente as mais qualificadas. Não nos podemos esquecer até que o ensino acaba por formatar os seus alunos. Como Pessoa disse: "Jesus Cristo, que não sabia nada de finanças, nem consta que tivesse biblioteca".

    E realmente, aquelas pessoas que as vezes vemos a justificar os seus votos na televisão, não lembram a ninguém...
    Alexandre

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