Como vos disse na aula, coloco aqui para discussão o texto que elaborei no ano passado para o blog a Raposa e as Uvas sobre o filme «A Comédia de Deus» de João César Monteiro».
«Como sabem, vamos dedicar este ciclo aos valores e achei por bem começar por um filme que representa uma absoluta transgressão dos valores tradicionais. O filme é marcado pelos contrastes claros que perpassam toda a obra cineasta: a música erudita e a música pimba;as citações literárias de Camões e a linguagem vulgar; a obscenidade e o recorte literário; as muitas palavras e o silêncio; a opulência e a degradação.
Mas, o filme é sobretudo marcado pelas contradições de João de Deus: homem pacato e zeloso, alquimista genial e respeitador dos valores familiares («não te esqueças que um dia serás mãe»), fundamentalista da higiene pública da privacidade da imagem e da reputação, pretenso altruísta que aparentemente se solidariza com os problemas da fome no mundo («temos que ser uns para os outros»). Mas é também a personagem da extrema perversidade: coleccionador dedicado de pelos púbicos, violador de empregadas de geladaria, falso beato e perverso no limite, João de Deus representa de uma forma cabal as contradições de uma moral dominante excessivamente repressiva que gera em todos nós uma duplicidade comportamental em que a parte obscura se remete para o domínio privado e nunca assumido perante os outros.
A hipérbole de João de Deus (personagem entendida como alter ego do cineasta) o seu sentido de transgressão e de excesso, nunca é gratuita. Ela remete-nos sempre para uma crítica feroz de todos os poderes colectivos constituídos sejam eles políticos, religiosos, empresariais e culturais (reparem no discurso de apresentação do novo gelado e dos convidados que o acompanhavam - uma prostituta reformada, um padre, um político e um empresário)e pela afirmação de uma feroz individualidade(JCM nunca se identificou com qualquer grupo ou lobby mesmo dentro do cinema)que mais do que uma redenção, deve ser entendida como um percurso de vida.
O filme remete-nos de forma elíptica para um vasto conjunto de questões de natureza filosófica, sobretudo de natureza moral: o que é o Bem e o que é o Mal? (Nietzsche defendia que estes conceitos não passam de palavras vazias). Quais os limites das convenções morais? Quais as relações entre a moral dominante e a felicidade individual? Qual o sentido de representação (no sentido teatral do termo) necessário a cada um de nós para se afirmar de forma socialmente aceitável, reprimindo a vontade e o prazer individuais? O que é que é socialmente aceitável relativamente aos comportamentos sexuais? Até onde poderemos transgredir?»
Está aberta a discussão
Jorge
Julgo que a questão é precisamente essa, a diferença entre o que fazemos quando julgamos estar a ser observados, como um ensaio, e aquilo que fazemos de portas fechadas. Não quer dizer que a primeira seja uma total fachada, simplesmente há umas tendências, com ares menos amistosos, que se tenta encobrir em público. Ou ainda, como dizia o Nietzsche, “Existe uma vivacidade na boa índole que parece malícia”. O que será isto? Uma compensação extra afinal? Uma dupla superfície que é de desconfiar? Além disso, até que ponto as tais coisas que fazemos de portas fechadas são consideradas erradas, MÁS? O que é isso de coisas boas ou más? Quem define isso? Qual é a origem? Quererão dizer alguma coisa? Não serão, mais uma vez, mais do que uma interpretação? Participando a filha do talhante voluntariamente no hobbie de Deus, fazendo até algumas provocações muito ao estilo de Lolita, inclusive naqueles grandes planos em que lambe o gelado. até que ponto podemos chamar àquilo uma atrocidade? Quantos não farão coisas semelhantes? Não temos meio de o saber afinal…Não havendo um manifesto assim tão claro por parte das raparigas, até que ponto o podemos julgar? Até a prostituta, que parece tantas vezes aberta a favores sexuais, se choca com a atitude de Deus. É hipocrisia ou, tratando-se duma menor, terá ela alguma razão? Haverá afinal algum meio de definir isto? Mais uma vez, vejo-o mais como um meio de controlo. As palavras não nascem más ou boas, morais ou imorais, são antes tidas como tal na repetição do acto, em que muitos se incomodam, não impedindo isto que haja quem não o julgue. E aqui? São os primeiros os portadores da razão? O que é isso da razão? É o que se atribui ao maior grupo? Acho que o filme retrata isto duma maneira que nunca vi antes. Se incomoda? Sim, mas isso só mostra até que ponto andamos a passear com as ideias de bem e mal.
ResponderEliminarOlá a todos!
ResponderEliminarEm primeiro lugar, obrigado stôr por ter trazido este filme, porque eu adorei. Absolutamente genial, eu não conhecia o trabalho do João César Monteiro, mas a partir de agora quero ver mais coisas. Foi na minha opinião, um dos três melhores filmes que vimos.
Eu acho que o filme é todo ele, uma “projecção” da mente do realizador, é a sua visão de um mundo (e país) hipócrita e sujo (imagem da peixeira, talhante). A personagem do João de Deus, é absolutamente fabulosa, no sentido em que deixa o espectador dividido. Realmente é um tarado sexual, um violador de empregadas de geladaria, coleccionador de pêlos púbicos femininos… mas é ao mesmo tempo uma figura extremamente ponderada, inteligente e absolutamente amada pelo espectador. É interessante pensarmos como uma personagem destas, é adorada pelo público. E isto leva-nos a pensar, afinal de contas, o que é o bem ou mal? Na minha opinião, isso não existe. Não há más, ou boas pessoas. Todos praticamos boas ou más acções. Mas o que é que são boas ou más acções? Eu acho que é uma questão interessante, porque realmente não existe nada que nos diga o que está certo ou o que está errado. Não há respostas certas. Só que temos encontrar moderação, lá porque não existe uma resposta objectiva para esta questão, não vamos matar, a primeira pessoa que nos aparecer à frente.
Eu concordo com a Isa em relação à questão de que até que ponto, é que a “joaninha” não queria ser seduzida pela personagem do João de Deus. A questão das violações é muito frágil. Porque é que será que se o Senhor João de Deus tivesse relações sexuais com esta personagem um dia antes de esta fazer 18 anos seria preso, e se fosse um dia depois já não. De um dia para o outro deixamos de ser crianças? A questão das mentalidades é fundamental.
Alexandre(ou mesmo Stôr),se tiveres encontrado algum site com os filmes dele,partilha sff.
ResponderEliminarAlexandre e Isa: Muito obrigado pelos vossos brilhantes textos.
ResponderEliminarEste foi o filme mais arriscado que passei este ano. É natural que gere algumas incompreensões. Mas, penso que vai ser como o slogan do Fernando Pessoa; primeiro estranha-se e depois entranha-se.
Jorge Saraiva
Após ter lido estes textos e de pensar sobre o filme, eu lembrei-me da nossa conversa sobre a loucura. Até que ponto é que a nossa loucura é, de facto, loucura? Será que para nós o que é louco, será o mesmo para os outros? Quais os aspectos da nossa personalidade que filtramos, e quais os que deixamos sair? E aquilo que passa pelo filtro, será que realmente representa aquilo que somos?
ResponderEliminarEste filme prova exactamente essa dualidade entre aquilo que aparentamos ser, de modo a viver em sociedade em relativa harmonia, e aquilo que somos, seres humanos, todos nós com características positivas e traços negativos, os nossos "podres" por assim dizer. Uma fachada de João de Deus é a de um homem educado e respeitável, a outra de um louco, um pervertido. O que é interessante é que nós podemos passar uma vida inteira a conviver com uma pessoa sem nunca descobrirmos o seu lado negro, mas assim que somos expostos a esse outro lado, deixamos de percepcionar essa pessoa como dantes. Torna-se praticamente impossível continuar a conviver com essa pessoa da forma como se convivia. O que quero dizer com isto é, por exemplo, se o João de Deus não tivesse sido inconsequente da forma como foi, se nunca tivesse sido apanhado, continuaria a fazer os seus gelados "perfumados" como se nada fosse, e as pessoas continuariam a tê-lo em grande estima. Mas a partir do momento em que foi apanhado, a sua vida acabou.
Para finalizar, eu tenho de discordar do Alexandre quando ele diz que o João de Deus é uma personagem "absolutamente amada pelo espectador". Falando por mim, isso não aconteceu. Eu queria que ele fosse apanhado e sofresse pelo que fez, não tanto pelo que fez à Joaninha (que isso é uma coisa que envolve apenas os dois) mas pela forma como fazia os gelados. Acho que aqui há uma clara transgressão da liberdade dos clientes, pessoas alheias à forma como ele criava os gelados.
Quanto à loucura, que o António referiu, qual será a sua definição, o que é e o que não é loucura? Como o André falou ainda há pouco tempo, aqui no blogue, do Fernando Pessoa, aqui vai uma definição que ele deu de loucura, para mim, a melhor que vi até hoje:
ResponderEliminar"A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana. Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal. Não ter consciência dela, e ela ser grande, é ser louco. Ter consciência dela, e ela ser pequena, é ser desiludido. Ter consciência dela, e ela ser grande, é ser génio".
Em qual destas condições se enquadra a personagem João de Deus? Na de louco? Será que ele não tinha consciência do que fazia? Seria ele um génio? A mim parece-me mais que era um desiludido.
“Digam de mim o que quiserem (pois não ignoro como a Loucura é difamada todos os dias, mesmo pelos que são os mais loucos), sou eu, no entanto, somente eu, por minhas influências divinas, que espalho a alegria sobre os deuses e sobre os homens. (...)
ResponderEliminarNão espereis de mim nem definição, nem divisão de mestre de retórica. Nada seria mais despropositado. Definir-me seria dar-me limites, e a minha força não conhece nenhum. (…) Além do mais, por que querem dar, por uma definição, uma cópia ideal de mim mesma que não seria mais que minha sombra, se tendes diante dos olhos a original?
De facto, quando se pensa que todos os homens estão condenados pela natureza a ter alguns defeitos essenciais; quando se considera a diferença prodigiosa que a idade, o carácter e as inclinações diversas criam entre eles; quando se reflecte sobre todas as fraquezas, erros e acidentes aos quais a sua vida mortal está continuamente exposta, como imaginar que a doçura da amizade possa subsistir por uma hora entre pessoas tão mordazes, a menos que a loucura, que podeis chamar de complacência, não viesse suavizar a severidade do seu carácter?”
Erasmo de Roterdão, “O Elogio da Loucura”
Resta-nos saber se o louco é alguém que age contra os seus princípios ou alguém que tem princípios diferentes dos gerais, uma realidade diferente.
ResponderEliminarPessoalmente, não achei o filme genial.
ResponderEliminarPodia dizer que não compreendi a sua profundidade ou ponto de vista mas acho que não foi isso que aconteceu. Era até capaz de dizer que este filme é considerado genial por ter sido extremamente ousado e chocante, completamente fora dos limites do que consideramos aceitável. Apenas isso.
Não acho que para passar determinada mensagem se tenha de recorrer a tão grandes extremos. Acredito que quando se quer fazer compreender algum ponto de vista isso deveria ser feito de forma mais subtil, de forma a deixar-nos pensar e reflectir sobre isso, para chegarmos nós a essas conclusões. No caso deste filme pareceu-me mais que JCM efregou na nossa cara a sua noção da realidade, a sua perspectiva. Foi simplesmente demasiado fácil, demasiado óbvio. Um filme apenas asqueroso.
A prencípio achei o filme repugnate eté nojento, á medida qu certas situações se iam processando, ia reflectindo com o porquê destas mesmas acontecerem e qual a mensagem a transmitir.
ResponderEliminartenho pensado bastante neste filme, é sem dúvida um filme muito bom mas que não se gosta de imediato.. Existem neste filme inúmeros paradigamas.
Por um lado ficamos a pensar que muitas vezes as aparências iludem,João de deus, parecia nos primeiros minutos um homem solitário, muito perfecionista e maníaco com as limpezas, senhor respeitavél e que também se dava ao respeito mas com o desenrolar do filme percebmos que esta primeira impressão é totalmente errada sendo joão de deus um pervertido sexual, que atenta incessantemente à hiegene pública e que se demostra imúne a qualquer tipo de valores ao envolver-se com as suas empregadas e com a filha do seus amigo talhante.
este filme não o entendo tanto como uma crítica aos valores pessoais mas sim aos valores colectivos.. Todas as raparigas violadas, excluindo a pequena de 15 anos, não se mostraram indignadas com tal facto tendo agindo com normalidade com toda aquela situação..
apesar de tudo, imensas das atitudes repugnantes efectuadas não passam de rotinas que muitos dos seres humanos executam "escondidos"..
Depois disto, devo dizer que existem inúmeras acções que ainda não consigo perceber o que se torna entusiasmenante..
JCM é sem dúvida um grande cineaste e esta representação do seu alter-ego, menos vicioso do que virtuoso é deveras excelente.