domingo, 13 de março de 2011

Criação artística: processo e produto.(1)

Há vários ângulos sobre os quais o problema da criação artística pode ser encarado: queria centrar-me nas questões do processo de criação e no produto resultante, ou seja, a obra de arte.
No processo de criação artística é muito frequente acontecer aquilo que se passou com a personagem do velho senador do filme Mr Smith Goes to Washington: cedemos um dia aqui; no outro cedemos ali e finalmente estamos a fazer não o que queremos, mas o que as diversas indústrias artísticas querem que nós façamos. Normalmente, é um caminho sem retorno.

Algumas artes, designadamente as mais populares como o cinema e a música,exercem sobre os criadores uma pressão terrível. O artista deve ser rentável, isto é, como é admiravelmente retratado no filme, ser capaz de corresponder ao gosto médio do consumidor. E o gosto médio do consumidor é, geralmente conservador, por um conjunto muito variado de razões. Do ponto de vista puramente processual, esse é o dilema do criador: manter o seu espírito de independência e fazer o que quiser (independentemente da qualidade do produto), ou adaptar-se às exigências de quem investe.

Claro que há casos de conciliação bem sucedidos. Criações artísticas que são simultaneamente inovadoras e populares. Penso que, com a progressiva mercantilização da criação artística, essa situação vai sendo cada vez mais difícil, embora seja diferente de arte para arte.

Na música, por exemplo,o aparecimento do cd na segunda metade da década de 80 e da Internet nos anos 90, tornaram o processo de gravação e de distribuição muito mais baratos do que nas décadas anteriores. Hoje é relativamente fácil e barato divulgar música por canais alternativos, o que permitiu o aparecimento de inúmeras expressões musicais totalmente independentes do mainstream dominante. O maior problema prende-se com a possibilidade de uma divulgação mais ampla doo que se cria. Mas isso é a secreta vingança do sistema em relação ao que não pode controlar.

Jorge

5 comentários:

  1. Na grande maioria dos casos isso acaba por acontece porque é quase uma questão de sobrevivência. A manipulação existe nestes campos porque os investidores sabem que o criador tem cada vez mais dificuldade em arranjar financiamento para o produto e acabará por ceder. São mesmo muitas raras as excepções em que a personalidade do criador continua sobreposta ao medo de não arranjar apoio em qualquer outro lado.
    Por outro lado, sabemos que se não se agradar à maioria das pessoas, tudo se torna mais complicado, porque a verdade é que as minorias não rendem e, salvo raríssimas excepções, o grande propósito do criador na criação da arte é precisamente fazer dinheiro e aí o criador junta-se ao comum dos mortais. Primeiro garante-se o sustento, depois virá a fidelidade aos seus gostos pessoais. Só uma pessoa com relativa estabilidade financeira se dá ao luxo de não ceder aos investidores. Sim, porque não ceder é um luxo de que nem todos podem usufruir.

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  2. O problema é mesmo esse, depois de passar pelo caminho do facilitismo, seja qual for a área, ainda ter força de vontade e apego à visão original para lutar por esta. Ou se tem realmente uma grande fome de concretização do projecto, ou deixamo-nos levar pelos biscates, em que o dinheiro é fácil. Nos primeiros momentos da carreira talvez achem que nem há opção, ainda não têm os fundos para o fazer, ainda precisam de alcançar algum reconhecimento por parte do público para se começarem a dar ao luxo de seguir à vontade a sua visão e haver a possibilidade de alguém prestar atenção àquilo que estão a dizer. Mas se há alguns que dizem que se vendem porque de início nunca se tem o trabalho que se quer, quantos deles, depois de o afirmar e alcançarem os fundos e a posição inicialmente desejada, fazem o que supostamente ambicionavam? Muitos perdem-se pelo caminho. O problema é que isto é muito limitante a nível artístico, porque não há evolução ou novas perspectivas, o que leva o público à habituação, fazendo com que qualquer alternativa ao "sistema" pareça revolucionária e difícil de assimilar. No entanto, por vezes fico na dúvida se o que é ousado e inovador, apesar de ter menos fãs, não os terá mais chegados e agarrados, "poucos mas bons", porque aquilo que quer obedecer aos desejos e gostos das massas por vezes desgasta-se, torna-se incoerente e vago, feito de 30 perspectivas heterogéneas e não uma consolidada, pelo menos a nível artístico.

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  3. Hoje em dia existem ainda imensos dogmas a este respeito.
    Todos nós percebemos que muitos dos músicos e dos filmes, não são senão imagens feitas á nossa medida, pois é por corresponderem ao nosso gosto e ao nosso esteriotipo que os adquirimos.
    Tudo neste mundo de rege pelo dinheiro, somos capazes de por vezes, especialmente os realizadores, deixar de parte a inovação ou mesmo a inclusão de prespectivas alternativas, por saber que vai tornar o filme menos rentavél e mas suscéptivel á crítica.
    como foi possivél ver no filme, por vezes ao executarmos uma pequena mudança, ao mesmo por pequenos pormenores sedemos a algum, vamo-nos tornando menos rigorosos com as nossa convicções-
    A questão que se coloca é até que ponto consguimos seguir os nosso valores e nao invregar pelo caminho mais fácil. se o objectivo é o dinheiro e nao a realização pessoal..

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  4. Olá a todos!
    Concordo completamente com aquilo que o stor disse em relação À questão das cedências. É como na politica, começamso a fechar os olhos, e quando damso conta somos uns corruptos de primeira! O díficil é consehuirmos equilibrar essa necessidade de fazer cedências que é indepensavel. Nenhum artista funciona sem fazer cedÊncias (os filmes são os filmes!).
    Por outro lado, tenho uma pequena nota sobre a música. Cada vez mais acho que o facto de que o acesso à música "não mainstream" (Seja lá isso o que for) fomentada pela internet,fundamentalmente nos últimos tepos, faz dessa mesma música, de certa forma... comercial.
    Alexandre

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  5. Não penso que este problema se deva aos cineastas, aos músicos, aos escritores ou a qualquer outro artista. A meu ver, isto deve-se ao facto da organização social a nível mundial ter como base o dinheiro. Hoje em dia, ninguém consegue viver sem dinheiro, visto que este é essencial para bens indispensáveis como a alimentação ou para bens materiais que nos possam trazer algum tipo de prazer. O facto da necessidade de ganhar dinheiro ser um aspecto tão central na vida de qualquer ser humano condiciona inevitavelmente a criação artística, na medida em que a prioridade de muitos criadores deixa de ser a sua expressão pessoal para passar a ser a obtenção de lucro. O facto das obras artísticas serem destinadas à observação pública conduz invariavelmente à necessidade de agradar a um grande número de pessoas para que estas continuem a ser rentáveis. Assim, trata-se de uma questão de proveito próprio, tal como qualquer situação que ocorra na actualidade, já que cada um tende a pensar estritamente em si e nos seus, vigorando a lei da selva - "salve-se quem puder".
    Quanto a uma solução para esta situação, penso que passaria por uma mudança radical no modo de vida e da mentalidade de toda a população mundial, o que é certamente muito difícil senão mesmo impossível de alcançar a curto ou médio prazo.

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