Depois da discussão da última aula e na controvérsia gerada sobre a questão do Belo em si, gostaria de vos colocar um excerto de um texto que distribuo aos alunos do 10º ano. Gostaria que a discussão sobre este tema se pudesse prolongar aqui.
A apreciação estética fundamenta-se nos chamados juízos estéticos. Estes são fundamentalmente juízos de gosto. A discussão sobre a natureza dos juízos de gosto e sobre se existe um Belo em si mesmo inerente aos objectos independente do sujeito, tem dividido os filósofos.
Para Kant, defensor do subjectivismo estético, não existe um belo em si mesmo. Os juízos estéticos são subjectivos e a beleza depende dos sentimentos de prazer provocados pela contemplação do objecto estético. Logo, a beleza não é propriedade de um quadro, mas refere apenas o sentimento de prazer que a representação do objecto em nós provoca. Por isso, todo o juízo estético é singular porque se refere apenas ao sujeito que ajuíza, mas universalmente subjectivo porque comunica a necessidade de adesão universal, pois deve ser válido para todos.
A esta corrente opõe-se o objectivismo estético, cujo principal defensor é o filósofo americano Beardsley Monroe que considera que a apreciação estética depende de um conjunto de características existentes no próprio objecto. Para este filósofo reduzir a arte apenas ao prazer que delas obtemos, impede-nos de considerar o valor peculiar das mesmas. Por isso, propõe que a obra de arte seja analisada por um conjunto de qualidades e relações internas, a saber:
• Unidade (questões relacionadas com a unidade, organização, estrutura formal, estilo coerente e perfeição da obra de arte)
• Complexidade (simplicidade/complexidade da obra, diversidade, contrastes, subtileza, imaginativa e inovadora)
• Intensidade (vitalidade, poder, ternura, sentido trágico e irónico, delicadeza e comicidade)
Jorge
Apesar de tudo, penso que os critérios objectivos defendidos por Monroe acabam por ser, eles mesmos, alvo de apreciações praticamente subjectivas.
ResponderEliminarA nível da unidade, o que se entende por perfeição da obra de arte? Sendo a perfeição inatingível, não será o nível dela mais próximo também ele dependente de pessoa para pessoa (mesmo especializada no assunto)?
Quanto à complexidade, quando saber que uma obra mais simples ou mais complexa é objectivamente melhor que outra?
A própria intensidade (que provoca emoções e sentimentos no público) penso que varia sempre consoante o sujeito.
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ResponderEliminarJulgo que esse conjunto de parâmetros objectivos se torna subjectivo muito rapidamente. Quer dizer, todos sabemos a definição de minimalismo, simplicidade, complexidade e afins (nem digo perfeição, já que não tenho bem a certeza do que se trata), mas quantos de nós, quando se trata de pôr "as definições em prática", o vêem nas mesmas coisas? Ou as coisas têm mesmo estas características em si, e nós andamos muito confusos, ou simplesmente tudo isto é altamente subjectivo. Quem é o bom guitarrista? O que pega em meia dúzia de acordes e com eles consegue dar profundidade à música, sem ficar limitado pela simplicidade e possível repetição, ou aquele que faz aqueles grandes solos?(já aqui é possível ficar-se confuso com a minha utilização da palavra grande e simples, ou mesmo se meia dúzia é pouco e a partir de que ponto algo se torna numa repetição considerável). Pensando na homogeneidade dos Lusíadas (número de versos por estrofe, divisão métrica...), quem disse que esta escrita está mais perto da perfeição do que a de quem escreve livremente? O que é escrever livremente?Quais os limites?Onde começa e onde acaba? O que é a perfeição, aqui ou noutra situação qualquer? Se há palavra com uma grande carga de subjectividade, é esta.
ResponderEliminarPara falar sobre esta questão, penso que o poema de Alberto Caeiro, em O Guardador de Rebanhos, retrata bem o que penso e qual a minha posição.
ResponderEliminarUma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca DO AGRADO QUE ME DÃO. Não significa nada.
Então por que digo eu das coisas: são belas?
Ora, isto é um exemplo puro da posição de Kant face a esta problemática. Na verdade, o que é belo? Só o subjectivismo estético mostra a realidade, só assim podem existir diferentes culturas, diferentes gostos, diferentes interesses, diferentes pessoas. Existe uma multiplicidade de gostos que está na base da nossa individualidade e que prova que na estética não pode existir objectividade. O conjunto de coisas que aprecio, de que gosto, tornam-me única relativamente ao vosso conjunto e ao conjunto de qualquer pessoa. Está indubitavelmente relacionado com a nossa história pessoal. Daí, portanto, aquilo de que gostamos ser o que para nós tem mais significado e nos diz mais. Existe sempre algo, ainda que não vejamos, que nos faz apreciar mais um objecto em detrimento de outro. Assim, para mim, a objectividade não existe nos juízos de gosto.
Concordo totalmente com a Isa.
ResponderEliminarAcredito que no que toca à arte tudo é muito subjectivo: partindo desses parâmetros o que é minimalista para uns pode não o ser para outros por exemplo.
Não acredito que possa haver uma opinião universal em relação à arte. O professor não gostou do Cisne Negro, eu pelo contrário gostei bastante.
Tudo depende daquilo que procuramos na arte e por isso é que esta é tão variada e tão procurada pois todos nos sentimos atraídos por aquilo que procuramos e admiramos.
Não acredito que exista qualquer coisa no mundo que agrade a todos sem excepções.
Eu não tenho muito a acrescentar, concordo com aquilo que disseram. Eu acho que não podemos ser muito assertivosé dizer que a arte é 100% objectiva ou 100% subjectiva. Provavelmente terá um conjunto de caracteristicas, indpendentes do ser humano, mas sem o nosso reconehcimento, não existia arte. Quem é que criou esse conceito, "arte"? Os homens. Por algum motivo também se considera arte, a obra humana. Ninguem olha para um fiorde noruegues e lhe chama obra de arte.
ResponderEliminarAlexandre
Acho que o ideal é mesmo a ligação entre a prespectiva/corrente kanteana e a de Beardsley.
ResponderEliminaré certo que por mais que os anos passem, existem e existirão sempre modelos dde beleza, estériotipos formados por nós. existe sempre algo que de forma alguma pode ser considerado belo, que deforma alguma possa ser chamado arte.
Sabemos, por experiencia própria, que nem todos gostamos do mesmo, todos nós aprendemos a gostar de algo.
é lógico que de alguma maneira, existem coisas universalmente belas ou repugnates, mas também é permiscuo avaliara que nem tudo o que eu acho que é belo, terá de sê-lo para outra pessoa, essa "intensidade" muda de cultura para cultura e mesmo de pessoas para pessoa
Esta questão é tão complicada e tem tantas ramificações que me dá dores de cabeça. O que é o belo? O que é o bom? O que é o bom gosto?
ResponderEliminarSerá que ter bom gosto é saber apreciar aquilo que é bom em "má arte" ou será que é apreciar "boa arte"? Será um bom gosto um gosto ecléctico? O que é que pode ser considerado arte, sequer?
A Isa mencionou o minimalismo; para Beardsley uma obra simples é necessariamente má? Isso é um pouco barroco...
E não será a intensidade algo relavitamente difícil de medir?
O ser humano tem emoções que afectam o seu discernimento; será possível fazermos juízos completamente objectivos?
Respondendo à pergunta do Alexandre, acredito que nenhum juízo é completamente objectivo. A própria palavra "juízo" tem algo de muito pessoal, isto porque quando julgamos alguma coisa, conferimos um certo valor à mesma. Este valor varia de individuo para individuo mas é normal que numa sociedade haja juízos semelhantes, partilhamos valores culturais parecidos. E são esses valores que influenciam o nosso julgamento.
ResponderEliminarUtilizando o cinema como exemplo, os prémios da academia são atribuídos a filmes que um júri define como sendo os melhores. Essa decisão leva as pessoas a irem ver os mesmos e a formarem uma opinião baseada na crítica feita. A questão que coloco é até que ponto é que o nosso gosto não é influenciado por aquilo que os outros consideram arte?
A meu ver, a definição do que é bonito ou feio é inata no ser humano. Eu não posso optar por gostar ou não dum objecto. No entanto, penso que os gostos vão-se modificando ao longo da vida, à medida que vamos experienciando novas situações e contactando com outras pessoas. Os gostos são portanto de certa forma moldados pela sociedade, cuja heterogeneidade lhes atribui este carácter subjectivo de que têm falado nos vossos comentários. Sou então da opinião que a definição de beleza é bastante subjectiva, não obstante o facto de existirem padrões universais comuns a toda a espécie humana que impõem alguns limites do que pode ou não ser considerado bonito.
ResponderEliminarPenso também que a forma como percepcionamos um objecto condiciona o facto de o acharmos bonito ou feio. Podemos observar um bouquet de rosas ao longe e parecerem-nos maravilhosas, mas se nos aproximarmos e observarmos meticulosamente cada uma delas individualmente, verificamos que nenhuma detém a beleza que nos parecera inicialmente. E quero com isto dizer que os objectos não detêm a beleza por si sós, já que o contexto em que são observados condiciona também ele a percepção do que é bonito ou feio.