domingo, 10 de abril de 2011

Via Láctea

A Via Láctea do Buñuel não é um filme fácil. O espírito delirante do cineasta manifesta-se em todo o seu esplendor com um conjunto de técnicas e de recursos tão caro aos surrealistas: cortes abruptos, incoerência argumentativa, mistura deliberada de épocas, etc.

Talvez este seja o seu filme mais focado a abordar a problemática das religiões e, em particular, do cristianismo. A mensagem nem sempre é directa e muito menos, explicita,mas podemos retirar das imagens muitas vezes avulsa, que a metáfora segue a dimensão da viagem. Os dois vagabundos que viajam sem grande devoção entre Paris e Santiago de Compostela vão sendo confrontados com o percurso das contradições da religião cristã através dos séculos. De forma elíptica desfilam muitos dos seus dogmas: o carácter da graça, a unidade e a diversidade da santíssima trindade, a mortificação do corpo,a redenção do pecado,etc. Buñuel não constrói nenhum panfleto: limita-se de forma satírica e venenosa a apontar as contradições que, aliás, também se estendem ao próprio ateísmo, como uma forma invertida de afirmação de fé.

O final do filme parece-me paradigmático: após a jornada longa encontraram não as relíquias do santo, mas uma prostituta. Como suprema ironia, o corpo triunfa sobre a alma, o temporal impõe-se ao espiritual, o sagrado bate em retirada perante o simplesmente terreno. Mais uma vez é Nietzsche que espreita: permanecer fiéis à terra e não se deixar cair nas tentações mentiras dos visionários do além.

Uma reflexão final para a qual gostaria do vosso comentário: será que a religião torna as pessoas mais felizes? Toda e qualquer religião ou a forma como a religião cristã se implantou? A religião é necessária? Em que sentido e com que atributos?

Jorge

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