sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Democracia e transparência II

Vamos então falar de indecências... e de promicuidades entre a política e a economia!
Claro que o filme do Capra se mantém, e infelizmente irá manter por muito tempo, actual. Tal como os documentários - goste-se ou não da forma - do Michael Moore. Isto porque na história da humanidade - perdão, do capitalismo -, há casos de sobra como os que são relatados no filme e que o professor indica no texto. Como não caberiam num comentário desta natureza todos os que são conhecidos e recentes no mundo, façamos uma reflexão sobre o que se passa neste cantinho afastado do centro de decisão da Europa mas bem no centro do Planeta.
Expressões como complots, compadrios, subversões, desonestidades, "não há almoços grátis", luvas, etc, aplicam-se às ligações obscuras entre a política e a economia. Melhor, entre os interesses políticos e económicos. Quem não houviu falar no processo Face Oculta? Farmacêuticas? BPN? Submarinos? Freeport? Ou o recente que envolve dirigentes da Mota Engil? Qual será o denominador comum destes casos e de muitos outros que a memória de momento não me traz? As ligações e interesses dos políticos com os gestores que foram ou querem vir a ser políticos? Claro que o recíproco também é válido. Em países como Portugal, é infelizmente fácil cair-se na tentação de tirar proveito próprio de situações privilegiadas que se ocupam em determinado momento. Daí que não é difícil perceber porque é que quase todos os gestores (?!) das principais empresas de capitais públicas são ex-ministros ou detiveram um qualquer cargo importante num Governo ou num partido. Desta forma como se pode esperar que se aponte o dedo a quem num cargo que se quer vir a desempenhar um dia? Se assim for, quando se lá chegar a coisa já não dá. E nisto, como em muitas coisas na vida não convém ficar mal na fotografia. Lembremos a promiscuidade do caso Face Oculta que envolve ex-governantes e sobre o qual há uma "heroína" anunciada: a ex-secretária de estado dos transportes que se recusou a pactuar com actos fraudulentos que não tarda serão do conhecimento de todos. Lembremos até o caso da formação do Primeiro-Ministro e de vários elementos dos dois últimos Governos com diplomas passados ao fim-de-semana (?!...). Lembremos obras e mais obras licenciadas sem que estejam cumpridos os requisitos legais ou autorizações que aparecem sem se saber como nem porquê. Numa pesquisa simples no Google com a designação "prosmicuidade entre política e economia" surgem 56900 resultados em 0,30 segundos. Como se vê é matéria fértil em casos. Por outro lado, em países como Portugal, a rotatividade entre partidos políticos no poder é um factor facilitador deste tipo de situações pois á fácil prever quando se está em posição privilegiada para "preparar" o futuro. Além de que a corrida a cargos de topo (sempre em empresas públicas que em muitos casos dão milhões de prejuízo) tem de ser bem doseada para que haja um equilíbrio entre elementos desses partidos.
Moral d(n)esta história? Não há!

Democracia e transparência

Uma das múltiplas lições que se pode retirar do filme de Capra prende-se com o facto do poder político parecer ser completamente controlado pelo poder económico. Taylor controlava tudo: eleições, opinião pública, assuntos de estado, etc.

Gostaria de deixar um pouco de lado as questões de cariz económico e centrar-me mais nas questões políticas. Se o poder económico controla e dirige o poder político, é a própria democracia que está em causa. Bem ou mal, somos nós que elegemos os nossos representantes políticos. Mas quem elege os donos dos bancos, os Belmiros ou os Amorins? Qual a legitimidade democrática dessas pessoas para condicionarem o poder político?

Pensem agora na actual crise mundial e europeia. Ela foi provocada por especuladores, bolsistas e não só. Quem são eles? Quem votou neles? Quem são os famosos mercados internacionais que parecem brincar com a dívida portuguesa e obriga a classe média e os pobres a fazerem tantos sacrifícios? Quem elegeu as empresas de notação de rating? Afinal vale a pena votar em políticos para nos representarem e governarem, quando eles no fundo são paus mandados dos grandes interesses económicos? Não andamos todos a ser enganados? Não seria preferível que o Belmiro e o Salgado do Bes e mais o Amorim se apresentassem ás eleições em vez do Sócrates ou do Passos Coelho? Afinal, o que é a democracia?

Apenas mais um pormenor; Há alguns anos um dos mais proeminentes dirigentes do PS, ex-ministro, abandonou inesperadamente a vida política e foi contratado a peso de ouro para dirigir o maior grupo de construção civil português. Porque terá sido, quando a esse dirigente não lhe era reconhecido no seu curriculum nenhum especial mérito enquanto gestor de empresas, uma vez que quase toda a sua vida foi dedicada à política? A resposta não é difícil se pensarmos que a esmagadora maioria das obras realizadas em Portugal são adjudicadas pelo Estado ( escolas, estradas, pontes, caminhos de ferro, etc.).

Por isso, 70 anos depois o filme de Capra é tão actual. Sabem porque é que nos EUA não é possível aprovar nenhuma lei que condicione o acesso dos cidadãos ao porte de armas e as munições se possam comprar de forma tão simples numa estação de serviço como se fosse um pacote de pastilhas? Porque o lobby mais poderoso dos EUA chama-se RNA e defende o uso e posse irrestritos de armas.

Pessoalmente acho o Michael Moore um mau documentarista. Mas, que grande parte do que ele diz é verdade, isso não pode ser negado, sobretudo no que diz respeito ao controlo do poder político pelos grandes grupos económicos. Durante anos o presidente Bush empenhou-se em mostrar que as alterações climatéricas eram uma falácia. Servia apenas os interesses das grandes empresas americanas ligadas às energias poluentes, sobretudo as petrolíferas que não queriam que se questionasse a influência que o desregrado consumo de energia, que eles chamam o "american way of life" tem sobre as alterações climatéricas. E isso, não é apenas uma injustiça: é uma indecência.

Jorge
Olá a todos!
Já temos sondagem para o filme desta semana: Mr. Smith Goes to Washington" de Frank Capra!
Vou acrescentar outra sondagem para escolhermos o filme desta semana (relacionados com o comunismo) que o stôr sugeriu.
Stôr, quarta-feira fecha-se a sondagem e assim poderá escolher o filme.
Alexandre

Sondagens

"Pump Up the Volume": 1(0%); 2(20%); 3(6%); 4(53%); 5 (20%)
"Rumble Fish": 1(8%); 2(8%); 3(58%); 4(8%); 5 (16%)

"Stand by Me": 1(0%); 2(29%); 3(41%); 4(23%); 5 (5%)

"This Is England": 1(0%); 2(0%); 3(33%); 4(46%); 5 (20%)

"A Onda": 1(0%); 2(6%); 3(20%); 4(33%); 5 (40%)

"The Stranger": 1(13%); 2(46%); 3(13%); 4(13%); 5 (13%)

"Rosetta": 1(0%); 2(20%); 3(6%); 4(53%); 5 (20%)

Alexandre Evaristo

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Um filme sobre o comunismo

A nossa passagem pelos filmes de cariz político está quase a concluir-se. Gostaria de o concluir com a passagem de um filme sobre o modelo comunista que nos pode proporcionar uma boa discussão. Existem várias possibilidades e gostaria que se pudessem pronunciar:

a) O Couraçado Potemkine de Eisenstein: filme mudo considerado um dos maiores filmes da história do cinema, que aborda o comunismo antes de ele ter acontecido porque relata a revolução russa de 1905.

b) O Sol Enganador de Nikita Mikhalkov; denúncia cruel do estalinismo nos anos 30, como um sistema que não poupa ninguém, nem mesmo as pessoas mais próximas do circulo do poder.

c) A Vida dos Outros de Florian Heckel: a denúncia da Stasi ( antiga polícia política da RDA) e a forma como controlava e reprimia a vida dos cidadãos

d) Palombela Rossa de Nanni Moretti: obra prima absoluta do realizador italiano, um filme denso e difícil, mas extremamente belo, sobre os efeitos provocados pela queda do modelo comunista num dirigente do Partido Comunista Italiano.

Se tiverem outras sugestões, sintam-se à vontade.

Jorge

Frank Capra - Peço a Palavra

Tal como tinha sido combinado, na próxima aula vamos ver o clássico de Frank Capra de 1939, "Mr. Smith Goes to Washington" que em português recebeu o nome de Peço a Palavra.

Frank Capra é um dos maiores cineastas de sempre e aquele que melhor corporiza o sonho americano de uma sociedade livre e democrática em que todos são bem acolhidos e existe igualdade de oportunidades. Mas também o que melhor dá voz à desilusão com o próprio sistema que é frequentemente corrompido pela ganância e por interesses particulares e obscuros.

Com Peço a Palavra, vamos entrar nos mecanismos de funcionamento da democracia, onde a dicotomia entre a transparência e a corrupção, entre o sentido de bem comum e os interesses privados. O filme ainda hoje é considerado por alguns círculos próximos do poder americano e dos defensores do "american way of life" como injusto e até blasfemo.

Podem encontrar aqui o trailer:

http://www.youtube.com/results?search_query=frank+capra+mr.+smith+trailer&aq=f

Rosetta - 2ª parte.

O que é desconcertante num filme como Rosetta, é a forma nada convencional como os irmãos Dardenne tratam as personagens. Falta o herói tradicional que representa o Bem e que se opõe de forma nítida aos maus, numa dicotomia maniqueísta que faz grande parte da história do cinema.

O cinema social, normalmente designado na Europa por neo realismo, teve o seu expoente máximo na Itália das décadas de 40 e 50. Cinema de esquerda preocupado com os mais pobres que se tornam protagonistas (Os pescadores em A Terra Treme de Visconti, um colador de cartazes em Ladrões de Bicicletas de Vitorio de Sica, uma artista ambulante em A Estrada de Fellini, etc.), são filmes geniais, mas que conduzem a uma identificação entre o espectador e as personagens principais vítimas de injustiças, maus tratos e exploração. Não é isso que acontece em Rosetta.

Se podemos considerar que o cinema dos Dardenne se filia nessa brilhante tradição de cinema social, o filme provoca uma ruptura entre o espectador e as personagens, em grande parte porque lhe falta o lastro da moralidade. Rosetta parece-me um filme profundamente ambíguo peça sua amoralidade. Nenhuma personagem serve de exemplo para ninguém: Rosetta quer um trabalho sério, mas não hesita em denunciar o seu único amigo; este é amigo de Rosetta, mas rouba o patrão; este, por sua vez, parece condoer-se de Rosetta, mas despede-a para lá colocar o seu filho; a mãe é fraca e alcoólica; o tipo que vende o gás e liga a água no parque onde elas vivem é mesquinho e ganancioso.

Se, por um lado, o filme se insere na tradição do cinema de esquerda com a denúncia dos mecanismos de funcionamento da sociedade capitalista, por outro lado é um ataque aos principais clichés de esquerda: a da consciência social e de classe dos oprimidos e explorados que levará inevitavelmente a uma transformação social no sentido de uma maior justiça.

E é aí que Rosetta se torna um filme tão interessante. Em termos políticos faz-nos pensar que os mais pobres não querem de facto nenhuma revolução, mas apenas viverem melhor segundo os padrões do capitalismo. A alienação domina-nos por inteiro e a relação com os ricos não é de combater as injustiças, mas sim de inveja.

O assunto dá pano para mangas. Eu que vivi uma revolução por dentro (em Portugal a seguir ao 25 de Abril) vi sempre que os mais revolucionários, os mais generosos e militantes das causas da esquerda, eram estudentes oriundos de classes com algum poder de compra, ou intelectuais que também não eram propriamente pobres. Falavam em nome dos operários e da revolução socialista. Estes iam vivendo a sua vida entre copos e bola. Porque será?

Jorge