O filme de Coppola que vimos, faz parte de um díptico sobre problemas juvenis feito no início dos anos 80 sobre problemas juvenis. O outro chama-se os Marginais e é do ano anterior.
a) O filme de Coppola é deliberadamente ambíguo e, nesse sentido, talvez possa mais facilmente ser transposto para a actualidade do que o Volume no Máximo. Relata-nos um mal estar e uma revolta não num estado, mas numa essência, quase com uma dimensão antropológica inerente à natureza da juventude.
b) A revolta de Rusty James não é politizada nem sequer dirigida. Não é limpa e agradável. Não gera solidariedade ou cumplicidade dos espectadores do filme. O estabelecimento de um corte entre a corrente que se possa estabelecer entre as personagens principais do filme e os espectadores, é uma das marcas mais interessantes do filme.
c) Estamos numa espécie de versão negra de James Dean e do Rebelde Sem Causa imortalizado sobretudo no filme de Nicholas Ray, Fúria de Viver. Mas aqui, tudo parece ser contra a personagem: não trabalha, não estuda, não parece ter outros interesses na vida para além de curtir com a namorada, nem sempre com sucesso, ou de andar em lutas violentas sem qualquer outro objectivo, para além da luta em si própria. Nem sequer as drogas parecem ser um motivo.
d) Para este comportamento próximo da delinquência, há algumas justificações, sobretudo familiares: uma mãe ausente, um pai permanentemente alcoolizado, um irmão diferente, tido por louco e que funciona como um ícone para toda uma geração.
e) A questão que mais me inquieta neste filme prende-se com os motivos da violência. Nesta reflexão desencantada sobre a natureza humana e em particular da juventude, parece perpassar a ideia de que não é preciso haver motivos para a marginalização e a revolta. Os jovens, pelo menos alguns, não precisam de motivos para terem comportamentos à margem daquilo que está social e legalmente estabelecido como conveniente. Um mesmo tipo de inquietação céptica que surgia com toda a crueza no filme A Laranja Mecânica de Stanley Kubrick.
Jorge
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