Reparei que ninguém emitiu a sua opinião sobre O Estrangeiro de Orson Welles que vimos na Cinemateca.
Como sabem, trata-se de um filme muito diferente de todos os que vimos até agora, sobretudo em questões formais, designadamente a época em que foi feito. Foi uma primeira incursão no cinema clássico americano, um filão riquíssimo e que gostaria de poder explorar melhor.
Gostava de saber o que acharam do filme e se valeu a pena a deslocação à Cinemateca.
Jorge
Pois é stor! Eu tenho estado a escrever um texto sobre o filme, e quero ver se publico amanhã.
ResponderEliminaralexandre
Stor, já vi o filme Lola, e realmente o elogio era merecido. É interessante como cada vez se gasta mais dinheiro em efeitos, cenários e todo o tipo de acessórios, já nem se sabe bem se é para tentar reproduzir algum tipo de sentimento ou sensação, ou se é simplesmente para o espectáculo visual, mas são filmes assim, a cru, que os arrumam a um canto. Trabalha-se tanto o sentimento (ou seja lá o que for) que se quer transmitir que, às tantas, já não nos diz nada, é só artifício. Aquela aparente apatia da “Avó”, como lhe chamam todo o filme (ou as legendas que vinham com o filme que tirei), perante a morte, e a atitude da mãe do assassino, fazem realmente pensar no que um clima de pobreza consegue banalizar, onde se fala na morte como no roubo de um telemóvel, e onde o roubo deste oficialmente parece ser mais valorizado. Simplesmente não se pára quando esta acontece, o movimento é constante, não há hipótese, é uma questão de sobrevivência que parece nem dar tempo para uma pessoa se entregar ao que seria a angústia de um filho que se tornara num assassino, ou outro que morreu. Há pequenos pormenores como o trato da “Avó” do dinheiro para o funeral – deixa-o cair no chão várias vezes, atira para a mala e este acaba por se molhar com os “dilúvios” constantes – que só vêm a adicionar toda aquela beleza crua. Não que o dinheiro não lhe seja útil naquela situação, mas parece ser completamente objectificado, serve só para passar de um dia para o outro, mas o apego a este não é tão grande quanto algumas pessoas poderiam julgar, já que se trata de uma família que vive claramente na miséria. No fundo é toda aquela questão dos assassínios, roubos e afins que estão tão em voga, e são constantemente representados em inúmeras séries policiais, mas num clima tão diferente, com reacções que contrastam tanto com as que nos são apresentadas normalmente, que nos faz pensar no dramatismo acentuado dos nossos actos, em que o mundo pára em situações destas, onde há sempre espaço para a teimosia em guardar rancor. Ali nem têm o “luxo” de perceber o que é dito em tribunal, esquecem-se conscientemente dos mais velhos que não falam a língua, e estes submetem-se, simplesmente tentando dar continuidade à sua vida. Torna-se angustiante o trato de alguns para com os mais velhos, onde o extremo é atingido na cena em que a “Avó” procura a casa-de-banho no tribunal.
ResponderEliminarAmanhã faço um comentário ao Estrangeiro!
O que é doloroso no filme, Isa, é a pobreza. A pobreza que no filme é retratada de forma quase poética, simples, sem artifícios, mas também sem esperança.
ResponderEliminarA situação na Filipinas é pior que a de Portugal. Mas se fores a ver a situação de tantos milhares de reformados em Portugal com pensões dde poucas centenas de euros, encontrarás situações que pouco diferem das referidas no filme.
Jorge
Ah, sem dúvida nenhuma. Não tenho a ilusão de que isso só se passa em lugares distantes. Basta estar atento e de olhos bem abertos para nos apercebermos dessa realidade em pequenas coisas à nossa volta, e com crises isto só tem tendência para se agravar.
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