No filme «A Onda» há uma questão que me parece particularmente importante e que foi muito bem notado no comentário do Gonçalo Lima:o que leva os jovens a uma adesão entusiástica à Onda, não são questões de natureza ideológica, mas sim meramente formais.
O discurso político do professor só se torna mais explícito no último dia e, mesmo assim, ainda relativamente vago. Os jovens não se tornam fascistas ou nazis. Eles aderem vibrantemente a um conjunto de traços e símbolos que lhes dão um forte sentimento de pertença e de identidade a um grupo e, simultaneamente, excluem os que a ele não pertencem: um símbolo, uma camisa, uma saudação, etc.
Isto levanta-me duas questões fundamentais que gostaria de colocar aqui para continuar a discussão que se pode prolongar para o filme seguinte Os Edukadores que versa sobre um tema com algumas semelhanças:
a) Como manipular os jovens os jovens de hoje? É fácil manipulá-los? E se é fácil essa manipulação, porquê? Será que os jovens se sentem vazios nesta sociedade que abandona as causas colectivas e se refugia num progressivo individualismo rodeado de tecnologia?
b) Que ideais têm os jovens portugueses de hoje? O que resta depois da ruína dos sonhos de revolução dos anos 60 e 70, e do individualismo da década de 80? Cada um quer tratar apenas da sua vida e ter sucesso, ou ainda existem sonhos colectivos? E se existem, quais?
Jorge
Hoje em dia é fácil manipular a maior parte dos jovens, somos, comparando com os tempos remotos, não só mais frágeis como abertos a outras experiencias..isto não acontece só com os jovens é claro, a publicidade por exemplo, manipula-nos e convence-nos de forma tal que nos tornaámos (jovens e adultos) numa sociedade quase puramente consumista..
ResponderEliminarExistem inúmeros jovens que passam horas e horas em frente á televisão, computador, psp's etc. Estas novas tecnologias fizeram com que as crianças se tornassem cada vez mais "caseiras" desprezando o contacto com os outros, com o meio que os/nos rodeiam..
A ideia de passar horas e horas na rua a jogar á bola, á macaca ou até a saltar á corda foram substituídos por aparelhos que consomem energia eléctrica.
Na minha opinião tudo o que é novo á partida identificamos como bom, tudo o que sejam novos desafios, nós jovens sãos, agarramos.. Tal como no filme " A onda", todos com uma vida rotineira e sem nada de aliciante para fazer, á excepção dos jogadores de pólo, encontraram no “grupo” que o professor decidiu criar uma nova experiência, a maior parte deles levou aquilo como uma “brincadeira”.
Cada vez mais vivemos numa sociedade individualista, todos, incluindo os jovens, são capazes de fazer o que quer que seja para serem bem sucedidos..A competitividade tem levado ao egoísmo assim como a pressão e a exigência que esta mesmo sociedade tem implementado ..
Eu acho que tens razão, Rute. mas tento ser menos pessimista do que tu. Há muitos jovens que podem não ter um ideal de vida, mas sabem distinguir bem o que querem do que não querem e não se deixam manipular facilmente pelos consumos fáceis e alienações disparatadas. A turma de Filosofia e Cinema é um bom exemplo de que nem tudo está perdido.
ResponderEliminarJorge
Eu concordo com a Rute e ainda acrescento. Eu penso que nunca antes na história os adolescentes foram tão facilmente manipuláveis, muito por culpa dos meios de comunicação.
ResponderEliminarAcho que um discurso de Hitler ou de Lenine são uma brincadeira de crianças ao pé da gigantesca promoção a "celebridades" como a Miley Cyrus ou a Lady Gaga, quer pelas tácticas utilizadas pelas campanhas de marketing quer pelo enorme alcance que estas têm.
Os jovens são completamente alienados e quando se apercebem disso nem sabem porque é que apoiavam X ou Y pessoa/movimento/moda.
Também concordo que actualmente vivemos cada vez mais afastados uns dos outros. Vivemos em constante comunicação, mas é uma comunicação insuficiente. Cada vez mais é utilizada uma chamada telefónica ou uma sms, em vez de um "café" ou de um encontro. Um exemplo ridículo mas tristemente verdadeiro dessa distância é a forma como algumas pessoas se apaixonam umas pelas as outras através de chatrooms ou msn's, sem nunca terem estabelecido contacto cara a cara.
Há uma "desumanização" crescente na forma como vivemos, cada vez mais dependentes das máquinas e não das pessoas, e por isso entendo o poder que o tipo de grupos como "A Onda" tem nos seus integrantes, na forma como os une.
Se por um lado há o excessivo individualismo quando se trata do lado mais competitivo, fale-se de notas ou de outras coisas, em que rapidamente se esquecem dos outros e do possível respeito que podia haver, por outro lado passa-se exactamente o contrário quando se trata do momento em que se tem mesmo de lidar com um grupo. Cada vez se cultiva mais aquela ideia de que para se integrarem em algum lado as pessoas têm de ter todas a mesma roupa, ouvir a mesma música, dizer as mesmas coisas, ter as mesmas opiniões em relação a tudo, o que muitas vezes resulta apenas em falta de profundidade. Uma coisa é uma pessoa ter determinadas características e identificar-se mais com uma outra que também as tem em grande parte, e outra muito diferente é criar um "eu" para se poder dar com determinadas pessoas, para poder ser reconhecido, acabando por se perder pelo meio. Não se passa da extensão de outra pessoa, ou de uma moda. Basicamente está a criar uma personagem, com aquele desejo, que tem estado tão presente nos filmes que vimos, de estar integrado em alguma coisa, ou pelo menos no Grande Grupo.
ResponderEliminarA ideia de que o António falou das "paixões" via internet também é interessante, e completamente real. Já se tornou em algo completamente banal, mas que me faz uma confusão profunda. Por mais que uma pessoa se identifique com outra em termos de gostos, isso pode não ser transcrito para o contacto na vida real. Podem sentir-se mais seguros nestas relações online, provavelmente têm menos probabilidades de se magoar, e se se fartarem é só fazer log off. Mas que sentido faz isto?Ninguém se completa assim. Já nem se sabe se é falta de capacidade de socializar, ou se chegámos a uma nova era, totalmente feita de aparências - aquela que se cria na página da internet, aquela que se cria para entrar no grupo. Depois no fundo este movimento reduz-se mesmo às aparências, porque o espírito individualista salta de novo para a cena quando se julga que a ocasião o exige, e não se tem problema em destruir confianças. Tudo isto para um lugar mais à frente na competição.
Os jovens de hoje poderão ser mais fáceis de manipular uma vez que existe um maior número que se encontra inserido em meios familiares desagregados, conflituosos ou em que os pais e os irmãos pouca atenção lhes prestam. Isto pode ter um enorme peso na formação da personalidade destes jovens pois estes necessitam de modelos que possam seguir. Os princípios morais, sociais e políticos adquiridos tanto no seio da família como na escola são essenciais para evitar que os jovens sejam facilmente manipulados.
ResponderEliminarContudo, a adolescência é também um período em que a personalidade individual se manifesta, por vezes por oposição ao “status quo” e à geração dos pais. Essa oposição saudável para o crescimento do indivíduo pode conduzir a conflitos que deverão ser adequadamente geridos tanto ao nível da família como da escola. Se assim não acontecer, o jovem terá tendência a afastar-se e fica mais susceptível a ser manipulado.
Assim, penso que é tanto ou mais prejudicial a ausência de modelos para os jovens, como a existência de maus modelos. Na ausência de modelos, nomeadamente quando os pais estão “ausentes”, passando o dia a trabalhar e chegando a casa sem disponibilidade mental para dar atenção aos filhos, é fácil que estes se voltem para a tecnologia, procurando preencher esse “vazio”. Por outro lado, os jovens que se encontram inseridos em meios familiares estruturados, com modelos bem definidos, poderão atravessar a adolescência de uma forma mais saudável, questionando, contestando e crescendo sem entrar em ruptura com a família e sociedade. Estes jovens serão certamente mais difíceis de manipular.
Quanto aos ideais, os jovens não só em Portugal como certamente nos outros países poderão estar a viver uma época particularmente difícil. O idealismo tem sido considerado como uma característica da juventude. Os jovens, que têm ainda a sua vida pela frente como se tivessem um livro em branco onde têm a possibilidade de “escrever” as suas opções de vida, deparam-se actualmente com barreiras que lhes parecem, por vezes, intransponíveis e que os levam a sentirem-se desmotivados. É difícil hoje em dia lutar por ideais e os sonhos colectivos estão provavelmente apenas no subconsciente. Contudo, poderão ser trazidos para o consciente por alguém com carisma e que tenha a capacidade de persuasão para “entusiasmar”, para afastar os jovens da dura realidade e para os levar a acreditar em qualquer coisa que lhes proporcione prazer ou uma recompensa.
Finalmente, existe um outro fenómeno social que é o “grupo”. As pessoas quando estão sós tendem a sentir-se mais frágeis. O individualismo coloca as pessoas na defensiva ou leva a que elas se tornem agressivas apenas para se defenderem. O grupo, por outro lado, proporciona segurança e uma sensação de força. Protege cada um dos seus membros, daí a facilidade com que os jovens são captados por um grupo e procuram manter a coesão mesmo que isso implique cedências no que respeita aos seus princípios individuais. Assim, um ou mais membros do grupo, ao tornarem-se lideres, podem conseguir manipular os restantes membros que cedem para não serem segregados.