sábado, 16 de outubro de 2010

Factores sociológicos e genéticos para o sucesso escolar

Depois de ler os diversos comentários que têm sido acrescentados neste blogue e que acabam por dar, quase todos uma importância muito grande ao facto da escola ser pública ou privada para o ranking, estive a reflectir e a ler sobre o assunto. Achei particularmente interessante um artigo sobre o sucesso escolar publicado numa revista de Pediatria.

O sucesso escolar e as notas elevadas nos exames nacionais provavelmente dependem mais de outros factores do que meramente do facto do aluno estudar numa escola pública ou numa escola privada.

O nível social mais elevado da maioria dos alunos que frequentam as escolas privadas proporciona não só uma maior facilidade de acesso a “facilitadores” do ensino, como por exemplo, os explicadores, como também a imersão num meio cultural que favorece a obtenção de melhores resultados académicos. O facto de a família ter uma maior capacidade para proporcionar um meio ambiente mais estimulante para o estudo, por exemplo, pelo facto dos pais também terem estudado e poderem transmitir a sua experiência e aconselharem os filhos, de motivarem os filhos para terem bons resultados académicos que por sua vez irão conduzir a melhores saídas profissionais, pode ser mais importante do que a escola que frequentam.

Por outro lado, embora não se possa de modo nenhum considerar, do ponto de vista individual, que uma pessoa é obrigatoriamente mais inteligente pelo facto de pertencer a um nível sócio-económico mais elevado, o que lhe permite estudar numa escola privada, ou que é menos inteligente porque pertence a uma meio mais desfavorecido, sendo obrigado a estudar numa escola pública, a realidade é que, em média, e através de um processo de selecção natural que conduz à sobrevivência dos mais aptos na sociedade, ao longo de gerações, os mais inteligentes alcançam melhores resultados do ponto de vista profissional e sócio-económico, casam tendencialmente com pessoas com características intelectuais semelhantes, transmitem aos filhos características genéticas e proporcionam um meio ambiente que propicia que os filhos sejam também mais inteligentes e que tenham melhores resultados académicos.

Embora esta ideia possa parecer chocante à primeira vista, é uma realidade sociológica incontestável e é baseada em estudos científicos. Nesse artigo que estive a ler sobre os factores que mais influenciam o sucesso escolar e, consequentemente, os rankings das escolas verifiquei que, por exemplo, o facto de uma criança ter uma boa aprendizagem da leitura na fase em que está a “aprender a ler” adquirindo um bom vocabulário, vai ser da maior importância para o seu sucesso escolar mesmo no ensino secundário e no ensino superior quando tem de “ler para aprender”. Ora, o peso do meio familiar e social principalmente na idade pré-escolar é tanto ou mais importante do que o professor ou a escola, seja esta privada ou pública.

3 comentários:

  1. Claro que a questão do sucesso escolar não se baseia puramente no ensino privado, simplesmente há aí toda uma série de factores que facilitam a aprendizagem. Isso torna-se tudo muito mais óbvio para pessoas que, como nós, o observam do exterior, porque o sucesso será muito mais frequente. Agora, quem for realmente muito bom, acredito que seja bom em qualquer lado. Poderá ter mais algumas dificuldades no ensino público se tem um mau professor, ou os colegas de turma não estão tão "controlados" e orientados como no privado mas, mais uma vez, quem é bom é bom, e desenrasca-se onde quer que seja. Há sempre casos que vêm quebrar a tendência que temos vindo a discutir, como quase tudo, não é homogéneo. O último parágrafo do texto é muito interessante, e realmente faz sentido. É a tal história de os filhos nestas situações terem também ambições altas como os pais, ou os pais têm por eles se for caso para isso. "(...)casam tendencialmente com pessoas com características intelectuais semelhantes, transmitem aos filhos características genéticas e proporcionam um meio ambiente que propicia que os filhos sejam também mais inteligentes e que tenham melhores resultados académicos." Parece já tudo mecanizado para obter o produto final, que será o filho com alto prestígio escolar. Peço desculpa, mas parece já que estamos a falar duma indústria. Fabricam-se filhos, fabricam-se notas...E estará realmente longe disso?

    A questão da leitura parece o "gira o disco e toca o mesmo", mas de facto é muito importante. Essa interacção com a cultura desde cedo, não só a nível da literatura, mas também cinema e música arrisco dizer, faz-nos crescer. Claro que a leitura nos ajudará em termos da escrita e da correcção desta, mas para o nosso desenvolvimento intelectual creio que as outras não são menos importantes. E quando falo de livros, falo daqueles que realmente nos fazem pensar. Hoje em dia há tanta coisa por aí que, em vez de andarmos a procurar livros (filmes, música...), andamos a filtrar. E esse filtro é mesmo necessário, com a facilidade que se parece ter em publicar um livro, há muita coisa má por aí.

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  2. Patrícia, eu não acho que, como dizia Descartes no início do Discurso do Método, que «o bom senso (inteligência) seja a coisa do mundo mais bem distribuída». Existem factores biológicos que determinam distinções e negá-los seria tentar tapar o sol com uma peneira. E isso tanto vale para a inteligência, como para o jeito para desenhar, escrever, jogar futebol, etc.

    No dia 14 de Novembro passam 30 anos desde que dei a minha primeira aula. Já apanhei de tudo! Mas uma coisa parece-me mais ou menos evidente; os alunos que provêm de meios sociais mais elevados e de ambientes culturais mais estimulantes, são normalmente melhores alunos do que aqueles que provêm de meios sociais e culturais mais desfavorecidos. E isso nota-se na nossa própria escola, que está longe de ser social e culturalmente homogénea.

    Claro que há excepções para os dois lados: há alunos que tinham tudo para serem excelentes, mas não não são; e alunos que conseguem furar nos meios mais adversos. Mas, são apenas excepções que confirmam a regra.

    Jorge

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