domingo, 31 de outubro de 2010

Rosetta: "Tu t'appelles Rosetta... Je m'appelle Rosetta... Tu as trouvé un travail ... J'ai trouvé un travail ... Tu as trouvé un ami ...


Uma palavra para descrever o filme “Rosetta” dos irmãos Dardenne é: inesquecível.
Este é de longe o melhor filme que vimos em Filosofia e Cinema, e tem características para polarizar opiniões: ou gostamos de todo ou odiamos. É um filme cru, sem banda sonora, edição ou actores profissionais, mas é esta a crueza necessária para retratar a dureza da realidade representada. Rosetta era afinal de contas uma jovem que de certo que ainda não tinha atingido a maioridade e lutava para garantir o sustento da roulotte onde vivia com a mãe alcoólica e passava por dificuldades “estranhas” nos dias de hoje.
Estranhas? Este retrato parece estar muito longe de nós, mas existe. Existe, a poucos quilómetros da cidade de Lisboa ou em qualquer periferia de uma cidade europeia deste nosso ocidente capitalista. Mas será que este tipo de situações só se dão nas sociedades capitalistas ou serão piores noutros regimes? Quando no anterior post falei em melhorias do capitalismo refiro-me ao combate destas desigualdades. Mas são possíveis de atenuar, porque temos que ser muito angelicais para crer numa sociedade completamente igual, basta referirmo-nos a uma palavra de ordem: força,
Dentro deste mundo capitalista que o filme retrata podemos abordar a questão das relações de trabalho. Quer queiramos quer não o patrão vai dominar sempre a vida do empregado, porque é ele que vai ser o grande “credor” do segundo, que lhe vai entregar o dinheiro para este sustentar a sua família. E portanto, uma certa exploração nas relações de trabalho vai sempre perpetuar-se.
No nosso debate muitos criticaram a atitude de Rosetta por denunciar o seu amigo para ficar com o seu trabalho. Mas será que nas condições de vida que a jovem tinha, não será o que todos faríamos? O desespero leva-nos a fazer muita coisa que pensaríamos ser incapazes de fazer. Se nos encontramos perdidos numa montanha sem comida com os nossos companheiros mortos, de certo que nos iremos alimentar destes. O ser humano tudo faz para sobreviver, porque o que está para lá da morte é assustador por ser desconhecido. Tudo aquilo que é diferente choca-nos e assusta-nos num primeiro momento.
Por fim, gostei bastante da intervenção do stôr no debate quando referiu que realmente a contestação ao estado das coisas nunca parte de quem está mal, parte de quem está de cima. Rosetta vivia na miséria, mas o seu desejo não era alterar o funcionamento da sociedade mas apenas ter um trabalho e uma casa, como ilustra o título deste texto, e fala do filme:
Rosetta: "Tu t'appelles Rosetta... Je m'appelle Rosetta... Tu as trouvé un travail ... J'ai trouvé un travail ... Tu as trouvé un ami ... J'ai trouvé un ami ... Tu as une vie normale... J'ai une vie normale... Tu ne tomberas pas dans le trou... Je ne tomberai pas dans le trou... Bonne nuit... Bonne nuit..."

Alexandre Evaristo

9 comentários:

  1. Não generalizava essa ideia de que o que assusta as pessoas é a vida para além da morte, pois certamente nem toda a gente considera essa fase, ou acha que existe sequer. Diria antes a morte em si,para uns mais que outros, como em tudo.Isto faz-me pensar na Morte Feliz do Camus, em que basicamente se diz que se fizeres o que ambicionavas da tua vida não precisas de outra, que é uma ideia que se vende muito, arrisco até dizer que as pessoas parecem mais preocupadas com a outra que acham que possivelmente poderão ter do que com esta que efectivamente têm, e que a morte pode não ser essa coisa monstruosa que nos faz agir de maneira ainda mais animalesca para não chegar lá, é uma etapa natural. Ou seja, quem não fez dela o que queria é que fica aterrorizado com o seu desfecho. Mas esta maneira de pensar está mais na área da excepção também, tenho noção disso.Dito isto, eu percebi o que querias dizer, é mais uma questão de instinto, e é assim que a maior parte das pessoas age.


    Vendo a situação da Rosetta de um lugar confortável continuo a não gostar da atitude dela, mas é daquelas coisas que quase que se tem de viver para a nossa resposta querer dizer mesmo alguma coisa, não estarmos a comentar uma situação que não nos é familiar. Aliás, já tinha dito isto em relação ao filme A Onda. É mais fácil para nós falar como espectador, e a história diz que os que lutam para alterar o funcionamento da sociedade estão em menor número, infelizmente.

    ( Adorei o desfecho do texto, muito boa ideia :) )

    Isa

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  2. Alexandre, referiste, entre outros, três pontos interessantes - o aperfeiçoamento do capitalismo, as relações laborais e a contestação colectiva.

    1(O aperfeiçoamento do capitalismo). Como todas as ideologias políticas e económicas, o capitalismo tenta, desde a sua definição, atingir um estado de perfeição. A construção do liberalismo económico, há muito proposto por Adam Smith, tem como objectivo final nada mais que uma utopia - mercado livre, transparente e de concorrência perfeita.(Pergunta) em que país já se viu, neste sistema, a concorrência perfeita, ou seja, a concorrência de tal maneira organizada que, por si só, define o preço "justo" dos produtos.(Resposta) em nenhum. Poder-se-à dizer que nos aproximamos desta utopia, mas a realidade é que não, a verdade é que temos vindo a assistir a um aumento dos monopólios e das fusões de grandes empresas. O capitalismo, então mais agora, o neo-liberal, defende a todo o custo o mercado, como nestes dias temos vindo a assistir a um orçamento de estado moldado à medida do mercado (ou dos mercados). Como dizia o Ricardo Araújo Pereira na sua crónica da Visão desta semana (em que eu me parti a rir), "Os mercados são uma espécie de bicho feroz cujo aspecto ninguém conhece ao certo. A única coisa que sabemos (...) é que levam a mal se os portugueses não passarem a pagar mais pelo leite".
    Como tal, isto para explicar que o próprio capitalismo nasce de uma utopia, como todas as ideologias. A questão é saber se é a certa. Para se atingir um melhor sistema é preciso primeiro definir uma imagem de perfeição e depois partir para o real. A verdade é que a solução não passa pelo aperfeiçoamento ou não de um sistema, mas sim pela sua mudança.

    2(Relações laborais). Referiste no teu post uma realidade com que, aparentemente, a população se acaba por conformar - a relação patrão-empregado. Na sociedade capitalista definem-se dois conceitos essenciais à sobrevivência da mesma. O patrão, que detém o capital e o poder sobre o empregado, de maneira a obter o lucro. O empregado, aquele que não detém o capital, e que se sujeita ao poder do patrão, de maneira a obter um salário. Será isto uma realidade justa?
    Eu não gosto muito do Michael Moore, tem uns filmes engraçados, mas muitas vezes demasiado conspiratórios e irreais. No entanto, o seu último filme, "Capitalism - A love story", chamou-me a atenção. Apesar de tudo, é o seu filme mais real e menos sensacionalista. Neste filme, às tantas, é-nos apresentada uma fábrica que não tem patrão, ou seja, funcionava segundo o conceito de cooperativa, todos trabalhavam, ninguém explorava ninguém,e todos acabavam por receber o "lucro" respeitante ao seu trabalho. É uma utopia, é verdade, mas para primeiro se instituir uma nova organização laboral, é primeiro preciso mudar muitos valores e falsos conceitos culturais. Para mudar a economia é necessário mudar as mentalidades. Para isso existe a política, mas quem é que muda a mentalidade dos políticos?
    (continua)

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  3. 3(Contestação colectiva). No filme, como referiste, assistimos a uma luta interior da personagem, para tentar ter uma vida normal, não através da mudança da sociedade, mas através da participação no sistema, como quando denuncia (lixa) o colega de trabalho. Mas, (pergunta) será que alguém como a Rosetta, que, literalmente, vive na merda, vai preocupar-se em mudar a sociedade e o mundo, mesmo com pequenos gestos. (Resposta) Individualmente, penso que não, daí as formas de organização colectiva. No entanto, como disseste, a contestação colectiva, não é encabeçada por quem vem de estratos sociais mais baixos, mas de quem olha a injustiça social de cima. Mas existe aqui uma diferença essencial. 1) Aqueles que vêm de cima para baixo, de maneira a ajudar e 2) aqueles que, apesar de teorizarem medidas de ascensão social, estão em cima, ficam em cima e olham de cima aqueles que em baixo precisam de ajuda e não o sabem. Estes últimos, apesar de acharem que sim, não vão mudar nada.

    P.S.: Para quem sobreviveu até ao final do comentário agradeço a atenção, já podem descansar um bocadinho...

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  4. Olá a todos!
    Em relação aquilo que a Isa disse, fazendo referência a Camus, acho que na vida, é impossivel realizarmos tudo aquilo que queremos, e há sempre desejo de fazer mais, há sempre uma insatisfação.
    Gonçalo, concordo e aplaudo o que disseste em relação ao idiota do Michael Moore... "Fahrenheit 9/11"? Muito mau... mas não vi o´"Capitalism; A Love Story". Concordo com aquilo que referiste, com excepção dos melhoramentos a fazer ao capitalismo que defendo. Nunca tivemos algo melhor, e não podemos viver na ilusão de que há um regime perefeito, e viver em constante mudança, porque isso traz muita agitação social, pouco benefica para uma vida de liberdade.
    Alexandre

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  5. Também não vi o 'Capitalism - A love story' mas já vi os outros filmes de Micheal Moore. Concordo que seja um pouco sensacionalista e não é de todo um realizador imparcial, mas nenhum realizador (principalmente documentário) é. Não acho que seja um idiota e 'Sicko' é um dos melhores documentários que alguma vez vi. Recomendo a todos!

    Concordo plenamente contigo, Isa. Apesar de não considerar correcta, eu não consigo condenar a atitude da Rosetta perante o 'amigo' sentada no meu quarto de barriga cheia. Não estou na posição dela. Não sei o que eu faria se estivesse.

    Contudo, não será perigoso deixarmos de condenar as acções das pessoas devido às suas condições de vida? Moral, amoral, imoral - Subjectivo? Onde é que estabelecemos o limite?
    É uma questão honesta, eu sinceramente não sei respondê-la.

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  7. Não diria que toda a gente é assim Alexandre, uma grande maioria é, e por isso mesmo é que essa ideia do Camus se enquadra numa excepção na sociedade. Eu olho para a minha avó e vejo que não é um mito, por exemplo, é uma questão de te confrontares com a pessoa certa. E acredita que é das coisas mais inspiradoras que pode haver. A maior parte das pessoas quer chegar aos extremos, nunca estão satisfeitas com aquilo que têm, mas não TODA a gente. Haverá sempre mais alguma coisa, mas acredito que haja uma situação em que comeces a dizer "Não, obrigada". Não sei se te parece ingénuo, mas a imagem que tenho na cabeça não é de PERFEIÇÃO, aí sim nunca se está satisfeito, acho que é esse o grande problema!Não quer dizer que corra tudo perfeitamente bem, isso já se chama ser alucinado, aqui é que as cabeças se confundem. Simplesmente uma pessoa está bem consigo própria.

    És tu e sou eu, Zillah. Por um lado é uma situação que não me é familiar, e sinto que grande parte das coisas que dizemos como observadores são ditas da boca para fora, porque não sabemos o que aquilo é realmente. Mas então o que é que fazemos? Não impomos limites?Não esperamos que essa pessoa tenha uma réstia de ética e bom-senso, e abstemo-nos de comentar a situação porque nunca a vivemos?Também não me parece bem, até se começa a instalar uma grande diferenciação entre as pessoas

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  8. Concordo que a atitude de rosetta nao tenha sido deveras a melhor quando denunciou o "amigo", mas analisando o outro lado não foi um acto assim tão macabro, visto que ela só queria trabalhar honestamente e havia alguem que estava a ocupar esse seu lugar.. Apesar de tudo ela queria trabalhar e honestamente.

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  9. Acho que a Rute tem muita razão quando diz que a Rosetta queria trabalhar honestamente. Não pensem que defendo o seu gesto, que acho bem que roube o emprego a quem "lhe deu a mão", mas também acho que esse facto não altera o valor da pessoa que a protagonista é. Na minha opinião, não existem boas ou más pessoas, todos nós praticamos o bem e erramos, uns mais que outros se quiserem. É exactamente por esse motivo que acho que não devemos condenar Rosetta, apesar de ter roubado o emprego, ela era também uma jovem com 17 anos (descobri após pesquisa), que era o sustento da roulotte onde vivia com a mãe alcoolica de quem tratava.
    Em relação ao "idiota" que dediquei ao Michael Moore, se calhar não terá sido a melhor expressão, mas lamento informar ele merece. Os documentários desse senhor, são piores que a "TVI", o "Correio da Manhã" e o defunto "24 Horas" juntos, puro sensasionalismo. É assim um trabalho com uma pesquisa fragil e pouco rigorosa. Para além, do mais é uma pessoa extremamente convencida, que cada vez que dá uma entrevista num talkshow, ofende toda uma platéia.

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