domingo, 6 de fevereiro de 2011

Ainda sobre a Comédia de Deus - uma opinião.

Vasco Câmara, o mais conceituado crítico português de cinema escreveu isto a propósito de A Comédia de Deus quando foi apresentado em Veneza:

«O dia da liturgia

João de Deus espalhou um venenoso perfume sobre Ve­neza. "A Comédia de Deus", de João César Monteiro, é uma celebração jubilatória, missa intoxicante aos sabo­res e odores arcaicos de um gelado chamado Paraíso- o cinema. É um filme de outra galáxia. Comovente foi, também, a celebração do regresso de Michelangelo Antomioni. Foi o dia da liturgia.

Há filmes em cujas imagens lateja uma pulsão predadora da beleza, mas como se ela fosse o reencontro com odores venenosos, intoxicantes - Paradjanov realizava esses filmes, por exemplo. Há então cineastas que se fazem sátiros, predadores arcaicos. João César Monteiro é um deles e " A Comédia de Deus", que ontem exalou o seu perfume na competição veneziana, é um filme monumento, celebração litúrgica do cinema como se ele ainda pudesse ser pecado.
É uma obra que vem de outra galáxia – está obviamente a anos luz da baixeza normalizada da maioria dos filmes da competição- e alguém lhe chamou "extraordinário tratado cinema, extraordinário tratado de obsessões e fetichismo". No caso deste filme, uma coisa tem que ver com a outra.
João de Deus, o sorveteiro que divide o seu tempo entre a mistura de aromas e a colecção de pêlos púbicos femininos, é o celebrante da extraordinária sucessão de rituais por que se estende este filme, - ao longo de 2h 45m. Rituais de caça, claro, rituais de um erotismo infantil e também satânico. Quando João de Deus brinca com um par de cuecas de menina, a elegância dos gestos é a mesma que bailava no corpo de Chaplin, por exemplo, ao brincar com o mundo no " Grande Ditador".
E quando João de Deus mergulha para um poço de ovos onde esteve acocorada a sua jovem presa – a grande "perturbação" deste filme é a pedófilia – a sofreguidão é cósmica. De onde é que vêm essas imagens? " De muito longe, coisas que li, que vi, filmes, pintura. É um magma. Há muitos materiais e a imagem é sempre uma conclusão". Dizia o realizador na conferência de imprensa. Este filme tinha direito a sair daqui com um Leão»

Jorge

2 comentários:

  1. A prova de que o filme não foi feito só para chatear pessoas e provocar o choque é precisamente a forma como é apresentado. Se ele quisesse simplesmente ser ordinário ou exceder os limites tinha muitas maneiras mais directas e perversas de o fazer, mas a preocupação visual do filme, dos gestos, até do tom de monotonia com que ele fala, tem mais alguma intenção além do choque à desbarata. Verdade seja dita, o filme tem imagens lindíssimas! Não me parece que tenha sido trabalhado a seco, nada disso! É antes um desafio, que está precisamente em descobrir o que está por detrás de cada uma das cenas, todas e cada uma com algo que se lhe diga.

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  2. concordo plenamente isa. o filme conjuga linguagem sarcástica e erodita e poemas de camões com a linguagem mais citadina e até com bordões de linguagem..
    Como disse anteriormnte é a imagem de João de deus, homem extrínsecamente e pacato, que não fazeria mal a ninguém, ar até frágil se tornar um homem que abdominamos, retirando os sentimentos menos humanos de nós próprios..
    acho q é um filme bastante racional, que evidencia alguns dos podres da sociedade!

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