Há uns anos atrás vi um documentário sobre a corrupção da polícia chinesa. Para combatê-la, o Estado enviava os seus polícias para os templos budistas durante um mês, tendo de passar esse tempo sem telemóvel, sem contacto algum com o mundo exterior e com uma alimentação saudável e racionada, obrigados a passar a maior parte dos dias a meditar. Através deste simples processo, os polícias ficavam como que “moralmente reinventados”, tendo esta medida uma elevada percentagem de eficácia. Na minha opinião, um procedimento semelhante deveria ser aplicado numa transição do capitalismo para um novo sistema, sobre o qual divagarei mais à frente, pois agora as pessoas não estão preparadas para um sistema totalmente novo. Como a população está neste momento, seria impossível introduzir um sistema que não a “Ditadura do Capital”, devido ao facto das pessoas estarem demasiado acomodadas ao actual: só vêem dinheiro à frente, como burros com palas que os impedem de ver as coisas à sua volta, só que em vez da estereotipada cenoura, uma nota impele-as a andar sempre em frente, nunca se desviando do seu caminho. Ora se a maioria destas pessoas educadas pela televisão, revistas sensacionalistas, jogos sangrentos e pela publicidade, não têm a mínima noção do que significam palavras como moral ou solidariedade, como funcionaria um sistema honesto e benéfico para todos?! O sistema que aqui proponho necessitaria em primeiro lugar que gradualmente se incutissem valores ética e moralmente correctos, como, por exemplo, os já referidos, o habitual “amor ao próximo” e certos princípios morais que deveriam até constar no código penal de todos os países. O código penal também seria outra coisa que devia ser alterada neste país, na medida em que deveria ser simplificado, pois, hoje em dia, se queremos saber o que é legal ou o que é crime somos obrigados a ler um volume de milhentas páginas extremamente enfadonho. A sociedade que eu idealizo, mas que ainda não considerei com certeza em todas as variáveis do problema, seria socialista a nível político, mas um socialismo verdadeiro, não o de “chacha” que há cá em Portugal, um que realmente reduzisse as desigualdades, não permitindo a existência de um abismo entre os ricos e os pobres; em termos sociais seria comunista, existindo abundante entreajuda, como os perdidos “vizinhos da aldeia”, que fariam quase tudo por nós; em termos económicos seria anárquico, na medida em que cada um receberia de acordo com as suas capacidades (inteligência, eficiência, etc), não estando dependente do “berço” ou das ajudas “por baixo da mesa”; religiosamente, seguiria o budismo, mais especificamente, o karma, ou seja, viveria segundo a máxima “praticas o mal, o mal cai sobre ti” e “praticas o bem, o bem cai sobre ti”, o que julgo que faria disparar a solidariedade; etnicamente falando, seria bastante diversa, pois a multiculturalidade é, na minha opinião, uma coisa bastante saudável. Não especificarei mais nenhum aspecto desta sociedade devido à extensão do texto, mas gostaria apenas dizer que faria, também, grandes alterações no sistema educativo. Será esta sociedade impossível de alcançar, será utópica? Sinceramente não tenho a certeza, mas olhando para o sistema agora em vigor e ao estado a que as coisas chegaram de uma coisa estou seguro: valeria a pena tentar!
P.S. Por favor dêem-me a vossa opinião sobre o meu sistema ou proponham alternativas. Deixo-vos com uma frase de Roosevelt que denuncia uma situação cada vez mais evidente:
A liberdade da democracia não está a salvo se as pessoas tolerarem o aumento do poder privado até a um ponto em que ele se torna mais forte que o estado democrático em si. Isso, na sua essência, é fascismo – domínio do governo por um indivíduo, por um grupo – FDR
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ResponderEliminarÉ uma alternativa indiscutivelmente bonita. No entanto, não consigo deixar de a considerar utópica.
ResponderEliminarNa minha opinião, o sistema que aqui descreveste poderia eventualmente funcionar numa pequena comunidade. Aliás, tu até referiste os 'vizinhos da aldeia'. Mas em grande
escala (e/ou a longo prazo), estou convicta que acabaria por implodir. Isto é, deixar de funcionar por avaria interna e não devido a forças exteriores.
Explico-me.
Para começar, seria difícil - mesmo, muito difícil - alterar as pessoas. Apesar de não partilhar do sentimento quase universal 'as pessoas nunca mudam', reconheço que a partir
de uma certa altura, a alteração genuína de uma pessoa é 1) quase impossível de alcançar e 2) quase impossível de detectar (se é genuína ou não). E, supondo que é de facto
plausível incutir os fulcrais princípios e valores nas pessoas da nossa sociedade, de certeza que não iriam se 'converter' todas. Haveriam evidentemente alguns contra o novo
sistema, haveriam evidentemente alguns que se revoltariam. O que nos coloca perante o problema da filtração das pessoas. Expulsão ou controlo dos revoltados? Ou é possível
coexistirem?
Digo que em grande escala não funcionaria porque em grande escala existe o sentimento de alienação. Alienação e solidão. Sentimentos estes que não fortalecem de todo a
solidariedade, mas sim, o egoísmo. Numa pequena comunidade, onde toda a gente se conheça, acredito que seja possível construir algo parecido com a tua Alternativa. Mas isto
porque se criariam, naturalmente, laços afectivos entre as pessoas.
No que toca a religião, eu pessoalmente não sei se o budismo seria o apropriado para fomentar a solidariedade/entreajuda. Supostamente, o Karma é produto do universo.
Manifesta-se através de coisas más, aparentemente coincidentais, que te acontecem para assim 'pagares' pelos teus actos. Mas a fé no Karma é muito facilmente levada ao
extremo. Na Índia, por exemplo, existem muitas pessoas que se recusam a ajudar outras que sofrem, pois consideram esse sofrimento o Karma e não querem, obviamente,
interferir nas forças universais. Não sei, portanto, até que ponto é que é racional implantar o conceito do Karma religiosamente (mesmo que não seja institucional) numa sociedade.
Para acabar, saliento apenas que concordo francamente contigo em muitos aspectos e, como não tenho mais nenhuma alternativa ao nosso sistema social, talvez não tenha o direito de criticar tão arrogantemente a tua. Mas tenho de admitir que não me parece realista.
[renato, agora vem tu defender a tua sociedade utópica alternativa :)]
Zillah
Acho bastante interessante a tua proposta de alternativa ao capitalismo. A questão em relação à qual esto em desacordo prende-se como seria feita a aplicação das medidas associadas à solidariedade, como é que podemos obrigar a sociedade a praticar o bem em relação aos outros?
ResponderEliminarPor outro lado, considero que a instituição do Budismo (associada ao karma no qual acredito profundamente) não será algo muito saudavel, como disse a Zillah, isto porque essa ideia vai contra a liberdade religiosa.
Alexandre
Acho que estas sugestões de mudanças radicais da sociedade terão todas ares de utópicas enquanto não forem postas em prática, acho que não é algo que se consiga confirmar a priori. Pode-se sim ver quais as mais ou menos coerentes, e eu, nessa área, ainda não tenho uma alternativa completa, a “minha” sociedade ainda está sob construção, mas o que tu dizes assim à primeira vista não me desagrada completamente. Claro que é sempre mais fácil criticar do que vir com soluções, mas ainda assim resolvi comentar.
ResponderEliminarQuanto ao budismo, ainda hoje li um comentário que comparava o budismo ao catolicismo e, se a minha opinião já se assemelhava a esta, só veio a ajudar a torná-la mais sólida. Eu não sou religiosa nem coisa do género, mas acho que percebi o que dizias. Tal como o livro dizia “O budismo é cem vezes mais realista que o cristianismo – traz, como herança, a faculdade de saber pôr objectiva e friamente os problemas (…) é a única religião verdadeiramente positiva que a história nos mostra (…) o budismo já não diz “luta contra o pecado”, mas sim, dando passagem à realidade, “luta contra o sofrimento” ”. Não acho que se deva tratar a religião como economia e afins mas, no meio da minha absoluta indiferença religiosa, percebo que o budismo pareça algo muito mais saudável (e não falo especificamente a nível físico) e que pudesse mudar o “clima” geral que se vive hoje em dia. Pelo que conheço das suas ideias base parece-me uma alternativa muito mais razoável e pela qual, mesmo não sendo praticante, ainda podia ter alguma simpatia. Não me parece que fosse algo assim tão passível de ser mudado, principalmente nestas gerações mais próximas, tal como a nível político, era uma questão de quebrar ideias de várias gerações. Talvez pudesse ter maior impacto, mas tal como eu não me vejo a mudar de opinião de um dia para o outro, haverão muitas mais pessoas com a mesma atitude. Dito isto, não desacredito que uma “sessão” dessas que falastes no início, se não uma total conversão, não pudesse fazer bem a algumas cabeças.
Só que por maior que fosse o esforço de rconversão, nem toda a gente o iria aceitar, há sempre excepções. Excepções que se podem levantar contras as novas instituições, levando a uma grande instabilidade social.
ResponderEliminarQuem somos nós para dizer o que está certo ou errado? Impensavel é, fazer uma "lavagem cerebral" às pessoas e "inserir-lhes" estas ideias na cabeça. Esse tipo de medidas é anti-democratica, não permite uma pluralidade de ideias.
Novamente em relação ao Budismo não digo que não seja bastante válido, só que um estado livre não pode ter uma religião oficial, porque a liberdade religiosa é conferida pela democracia. E a adopção duma religião punha em risco uma laiscização do estado.
Alexandre Evaristo
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ResponderEliminarSim, claro, não só seria muito difícil como é óbvio que não se deve impor nenhuma religião, de modo algum, não íamos votar numa para cada sítio. Eu pessoalmente dispenso-a por completo, mas isto são coisas consideradas altamente subjectivas. Por vezes, e para alguns casos, ingenuamente, digo eu, mais parece que caminham para outros lados. As pessoas já se julgam o suficiente pela religião, simplesmente dentro do que há, e imaginando que teria mesmo de haver alguma coisa, o Budismo tem ares de ser mais suportável. Entro menos em choque com ele do que com o cristianismo, por exemplo, como já referi.
ResponderEliminarA problemática d utopia dava uma boa discussão. Proponho que a posssamos ter quando discutirmos o comunismo
ResponderEliminarJorge
Interessante esse documentário.. realmente o contacto com coisas pouco virtuosas fez de nós, sers humanos, seres cada vez mais frageis e amedrontados.
ResponderEliminarApesar de tudo o dinheiro move o mundo, é ele que define as nossas vidas e por muito que influencie as nossas decisões e por vezes maneiras de pensar e agir, ele caba por como que "equilibrar o mundo" na medida em que se torna a recompensa..
Pessoal, obrigado pelo feedback, fico contente.
ResponderEliminarRealmente não tinha pensado nesses problemas causados pela religião e em especial pelo budismo. Zillah, os valores morais que eu incutiria na população através do processo de transição gradual, através de, por exemplo, propaganda e publicidade, não permitiria que existissem esses extremos religiosos, porque as pessoas seriam capazes de distinguir o bem do mal, mesmo que não sejam noções totalmente universais, há coisas básicas como "não matar" e etc.
Alexandre, entendo-te perfeitamente, eu próprio acredito no karma. No entanto, gostava de dizer que a minha frase do texto que explica que a religiao seria o budismo queria realmente dizer que numa utopia a religião que escolheria seria aquela, se conseguisse converter todo a gente. Como é óbvio, não ia obrigar alguém a aceitar ideias com os quais não concordam ou expulsar alguém do país por não partilharmos as mesmas crenças! Não concordo com essas acções extremistas
Rute,descordo na tua concepçao de que o dinheiro equilibra as coisas, é obvio que ninguem da nada a ninguem, mas o retorno nao tem que ser necessariamente material, tu ao ajudares uma pessoa sentes-te bem no entanto nao recebeste nada material em troca; mas ganhaste algo mais valioso(na minha opiniao claro), o respeito,compaixao prazer de viver sao sentimentos que nenhum dinheiro compra e que servem de mediadores, muito mais que o dinheiro.
ResponderEliminarMiguel em relaçao á tua proposta, acho que hoje em dia se banalizou a palavra ''utupia'', utupia nao é algo que é inatingivel,mas sim uma sociedade ideal,mas obviamente que o processo para a concretizar teria que passar por muitas fases primeiro.
O mais facil de mudar seria desde logo as infraestruturas, ou seja instituiçoes como saude ensino bancos, industria- e aí quando te referes a um sistema economico anarquico em que cada um receberia de acordo com as suas capacidades, coloco-te uma questao, entao e um defeciente motos? seria justo ganhar menos visto que tens menos capacidades?, aaaí talvez concorde : de cada um de acordo com suas capacidades, a cada um de acordo com suas necessidades”. ”, mas isto a que chamas anarquico é de facto comunista(na fase suprema) socialista na fase de transiçao.
Depois abordas a questao da religiao, aí coloca-se a parte mais dificil de alterar, a superestrutura, é o que esta na cabeça das pessoas(competitividade,desonestinada, falta de espirito de unidade), e isto sim é realmente um quebra cabeças para mudar, pois demora muitas geraçoes para se conseguir mudar.
Tambem proponho a linha do Confucionismo. Confucio defendia ensino gratuito para todos...
e tambem que apenas uma pessoa que vivesse correctamente é que conseguiria ser realmente feliz
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ResponderEliminarAndré no caso do meu sistema económico anárquico, ele não seria injusto para as pessoas com problemas físicos e/ou mentais, pois, como disse, a nível político o sistema seria socialista, sistema que implica uma diminuição do fosso entre os pobres e os ricos e que também ajudaria as pessoas com menos capacidades por serem condicionadas por doenças físicas e/ou mentais. E cuidado, porque o anarquismo de que eu falo é o de Proudhon, também conhecido por "mutualismo", o primeiro sistema anarquista concebido, que repudia totalmente os ideais comunistas, pois estes restringiriam as capacidades de cada um.
ResponderEliminarComo já disse no texto, não interessa quantas gerações seriam necessárias para haver a alteração da mentalidade e dos valores morais das pessoas, nem que demorasse milénios! O que realmente importa é que, na minha opinião não podemos viver neste sistema corrupto para sempre.
É óbvio que não iria negar o ensino a ninguém. E a frase sobre a felicidade, como acredito no karma, acho que isso é como que uma lei da vida...
como ficaria muito extenso um comentario como o que quero fazer a
ResponderEliminaresta proposta politica aqui...vou antes "postar" o meu comentário em tom de alternativa tambem
Não quero é que tem aquilo como um ataque pessoal mas sim se preferirem como ataque colectivo tanto ao que vemos hoje em termos políticos como ao carácter do ser humano.
Em parte gostava de dizer que apesar de não concordar, gostei que tivesses traduzido de forma mais estruturada (aqui onde tudo fica a pratos limpos xD) a nossa discussão no outro dia.